13.11.06

Terceira


Foto de Gonçalo José Pereira dos Santos

A toda a volta o mar ter abraça
no teu vestido verde, feiticeira,
das tuas fragas ond'o mar passa
nesses vales e aldeias da Terceira.

e dos teus vulcões adormecidos
que jazem nos algares inanimados
pastos de toiros em campos perdidos
que Isabel a Santa cobre, abençoados

e d'Angra e da Vitória onde me guardo
vejo o Sol descendo apaixonado,
olh'o Oeste distante e frondoso

e um açor que voando sobr'a Baía
numa criptóméria poisa p'ra meu gozo
e me faz sentir em ti a poesia.

Sentido único

Eis uma nova informação,
Senhores!
Deram à minha rua um sentido único!!!!!!
Notícia estranha esta, da minha rua,
Não posso voltar atrás?
Nem cirandar pela rua?
E quando esquecer a chave, e quiser voltar?
Não vale a pena,
Que a minha casa é no meio da rua
E a minha rua acaba no fim, e não retorna,
Sem sentido que não único
Quando sair, será a ultima vez,
Para quê voltar pela chave?
E pela rua?
E os rapazes acenarão com lenços brancos,
Porque me verão uma única vez,
Na direcção do sentido sul.
E direi um único e final adeus
À minha amada,
Que o sentido único da minha rua,
Me fará buscar outra rua,
Que vá dar à minha.
De um sentido único.
Já sinto as saudades das varandas
E do cheiro da sopa a cozer à tardinha,
E dos gatos babando-se no salto
Pelos pássaros,
E das campainhas das ciclas que guincham,
E das bolas que batem no muro baixo
Da minha casa.
Já sinto o sentido das coisas que desaguarão,
E do final triste da foz
Que tem por destino partir,
E das velhotas,
A quem sorria e recuava
Para ouvir, suas vozes baixas e roucas
Contando do que tinham visto na rua
Com sentidos,
Agora de sentido único…
Ninguém vai olhar o princípio da minha rua
Procurando quem volte,
E haverão novidades
Com um único sentido,
Eu sentido,
Tomarei o mundo
Sempre com o mesmo e absurdo sentido.
Um sentido único
Que deram à minha rua.

7.11.06

Vencido

Angustio-me na espera de te ter,
assusto-me nos teus braços
que me querem.
Escondo-me de ti
evitando os teus olhos
trespassantes,
negando que é em teu
colo
que me entendo
e preenches meu sentido,
minha carne.
Sou e não sou no mesmo tempo
o amante certo
de teu corpo,
bebo teu prazer
sofregamente,
deixo minha pele
em teus lençóis
e teu cheiro me invade,
bem colado
em meu torso,
onde te agarras,
verdadeira,
e quando a noite vem
e se despede,
e a lua baixinho
sussurra
que o pecado onde me prendo
é culpado,
- arremeto contra mim
arrependido -
de cada vez que estou em ti,
ficar vencido.

Coragem de amar

E porque o Sol lá estava
senti teu sorriso,
acendendo meus desejos,
e a vontade enorme
de que os meus beijos
te enamorassem,
e te abraçasse como se fosses minha.
E do nosso canto
o Mundo aquecesse
no prazer incontornavel
das palavras oferecidas,
dos gestos sem cadeias,
do amor ilimitado
que o sonho desvenda.

E porque a vida nos cala,
e os sonhos se perdem
nas avenidas que atravessamos;
e porque os que amamos
nada nos devem,
e a morte embala
o nosso destino,
ficamos parados
na esperança fugaz
que um dia partamos,
na coragem capaz
de nos revoltarmos
e sermos só
aquilo que sempre quisemos.

30.10.06

E de um poema nasceu...

Foram muitas as palavras, trocámos poemas e comentários, avolumou-se a caixa postal. Cada vez, as palavras faziam mais sentido, olhava cada frase, cada poema e só sabia que todos os dias, ia querendo mais e mais. O gosto da cumplicidade preenchia os nossos tempos, e percebemos que tínhamos criado algo único e pessoal onde só nós podíamos entrar, como os cantos secretos dos adolescentes, onde o mistério e o segredo animam cada fracção do nosso corpo. Tremia só de pensar nela, percebia nas palavras dela, a mesma intimidade, a mesma necessidade de algo diferente e especial, que só cada um de nós podia dar ao outro.
Um dia acabamos por ir mais longe, trocamos telefones e e-mail, soubemos como era o aspecto físico um do outro (como se isso interessasse), e combinámos encontrar-nos. O medo e a ansiedade iam tomando conta de mim, já sabia quem eras, quanto esse teu coração podia entregar, a profunda sensibilidade que criavas em cada poema, a forma como sentias a vida. Decidi abandonar-me a esta paixão, nascida da emoção das palavras, sem qualquer destino, sem qualquer certeza. Apenas como se o mundo fosse um recanto ingénuo, onde nos faríamos felizes, para além de qualquer coisa. Decidimos encontrar-nos.
Olhei-te demoradamente, como se já te conhecesse, como se o teu olhar estivesse para além de ti, da tua forma, da tua roupa. Pousei meus olhos nos teus lábios, segurei tuas mãos, sentindo nelas a força da tua escrita, e quis meu peito contra o teu, como se já fosses minha e te abandonasses sem receios.
A verdade de um beijo formal e um “como estás?”, parecia não fazer parte do nosso quadro, mas foi assim que aconteceu. Procurámos uma esplanada, agradecendo a mesa que nos dava a distância suficiente a nos entendermos, e tentámos começar a conversa, que no nosso canto era tão fácil e fluida. Percebemos rapidamente o nosso embaraço. O nosso desejo contido pela formalidade física, as nossas limitações do outro lado da vida. Formais e inquietos, entregávamos sorrisos tímidos, perguntas esbarravam com os tiques nervosos – tu meneavas o cabelo, eu arrependia-me quanto podia, de ter deixado de fumar.
Acabámos por começar a conversa, acerca do teu poema que escolheras não sei para onde, o tal que me pediras ajuda. E depois foram conversas sobre mais um e mais outro, a vida começava a fazer sentido outra vez. Perdemo-nos nas horas, nos compromissos, fomos papel e caneta, escrita a dois, poemas inventados, a felicidade de nos termos, e por fim um poema em cima da mesa, que copiaste numa letra soberba e me entregaste. Já não sei se nos despedimos ou ficamos, se nos beijamos ou nos amámos.
Essas são as memórias que o nosso canto irá guardar para sempre, como nós dois guardámos esse poema que só nós, sabemos dizer de cor.

27.10.06

Chamas

Roçando de leve o teu corpo
percebo a textura
do teu ser,
encontro-me contigo
nos meus braços
um fogo sempre novo
a acender.

E na voragem da carne
que se entrega,
nossos corpos se cruzam
nessa cama,
onde cravas teus dentes
na minh’alma
e teu corpo sempre acende
nossa chama.

E no fim do tempo
de nos amarmos,
tuas pernas longas,
encharcadas,
se colam nas minhas,
repousamos,
a noite -
deixa histórias
bem guardadas.

25.10.06

Do fundo da manhã

Do fundo da manhã
‘inda o sol não te sabia,
entraste de rompante
no meu peito
deixando o perfume
dos poemas
largados ao redor
do meu destino.
Olhei-te devagar
pedindo aos teus olhos
que dissessem,
o que as palavras já não falam,
as mãos não contêm,
o coração já não segura.

Entregaste-te,
sem medo, sem perguntas,
fechando meus lábios
às palavras,
que o silêncio diz tanto
às vezes,
do mais puro que se guarda
na memória,
do amor
que não se sabe dizer,
nem nos poemas.

Qualquer lugar

Sento-me em qualquer lugar,
como se fosse
sempre o mesmo,
sabendo que irás passar
e que a minha pele
se arrepia
quando sinto teus passos,
teu chegar.
Os meus olhos salgam-se
abrem-se para te ver,
para me demorar
no teu rosto,
na tua expressão incontornável,
com que te construo
os poemas
que enfeitam meu sonho..
Espero-te
nas palavras que me trazes
faminto
dos teus gestos,
sedento
da tua boca
que sossega meus lábios
que apenas se acalmam
entregues nos teus.
E na espera que consome
minhas horas,
vergado ao peso da tua ausência,
saboreio as palavras,
guardadas no meu peito
que sei, um dia
escreveste só pr’a mim.

Sempre fugindo

Ouvi ao longe os teus passos
caminham para um breve momento
em que todos os minutos são escassos
quando os beijos se perdem ao vento

sempre breves, sempre fugindo
nossa paixão nunca se agarra
como pingos de chuva caindo
perdendo-se no fundo da terra

fica enfim essa lembrança
do teu perfume, cheiro d'esp'rança
e de nós dois, sem pressa, sorrindo

caindo juntos no mesmo leito
fazendo um poema, que estando findo
se crave para sempre no meu peito

Tomas-te nos meus sentidos

... da T.

Sinto-te no meu peito
Como se uma pomba
As asas batessem
Vejo-te no horizonte
Como se fizesses
Parte dele
Escrevo-te em palavras
Pois o silêncio reina
Oiço-te
Entre as ondas
Do mar
Como se um poema
Me cantasses
Cheiro-te entre as
Melhores castas
E degusto-te
No meu cálice
Como se fosses
O melhor dos vinhos

17.10.06

Leio-te

Leio-te
como teus olhos
fossem o poema
mais belo de
sempre…
Leio-te,
nas tuas mãos
alimentando os meus sonhos,
nos teus gestos
afagando minh’alma,
nas tuas carícias
que me desvelam
e me torturam.
Leio-te
nas tardes de Outono,
quando a noite se atrasa
repousando na sacada
perdido num pôr-de-sol.
Leio-te
em cada palavra
discorrida,
em cada livro,
imaginando-te…
leio-te
sem te aprender…

Breve sonho que não foi

Cruzamos palavras sem pensar
Estendidas pela rua, pela alma
Sonhavam, choravam sem falar
E se deram ao final da tarde calma

E um amor singelo, foi crescendo
Da ponta dos dedos de escritores
Que se davam quando escrevendo
Espantavam do peito seus amores

Mas afinal a estrada era dura
E pior que o mal, foi a cura
Deixaste-me no meio d’avenida

Fugiste sem tempo para falar
Era mais forte o que vinha da vida
Perdi-te sem tempo de te achar.

Rotina

Repetem-se os dias
numa cadência
insuportável.
O cinzento desbota-me
os olhares,
e as palavras morrem
nos lábios,
monossílabos singulares
sozinhos
que nada significam.
Os dias de chuva partem,
e os de sol
voltam e retornam,
nem o frio me trespassa,
nem mancho o colarinho
no calor dos dias
iguais.
Sou eu,
e o insuportável peso
de me ter;
e por mais que os olhos
se incendeiem
e te conheça nos desejos
que me acordam,
enquanto não voltes…
e me sacudas,
os dias incompletos
repletos de horas
repetem os acordes tristes
dos dias sem ti,
dos dias iguais