25.10.06

Tomas-te nos meus sentidos

... da T.

Sinto-te no meu peito
Como se uma pomba
As asas batessem
Vejo-te no horizonte
Como se fizesses
Parte dele
Escrevo-te em palavras
Pois o silêncio reina
Oiço-te
Entre as ondas
Do mar
Como se um poema
Me cantasses
Cheiro-te entre as
Melhores castas
E degusto-te
No meu cálice
Como se fosses
O melhor dos vinhos

17.10.06

Leio-te

Leio-te
como teus olhos
fossem o poema
mais belo de
sempre…
Leio-te,
nas tuas mãos
alimentando os meus sonhos,
nos teus gestos
afagando minh’alma,
nas tuas carícias
que me desvelam
e me torturam.
Leio-te
nas tardes de Outono,
quando a noite se atrasa
repousando na sacada
perdido num pôr-de-sol.
Leio-te
em cada palavra
discorrida,
em cada livro,
imaginando-te…
leio-te
sem te aprender…

Breve sonho que não foi

Cruzamos palavras sem pensar
Estendidas pela rua, pela alma
Sonhavam, choravam sem falar
E se deram ao final da tarde calma

E um amor singelo, foi crescendo
Da ponta dos dedos de escritores
Que se davam quando escrevendo
Espantavam do peito seus amores

Mas afinal a estrada era dura
E pior que o mal, foi a cura
Deixaste-me no meio d’avenida

Fugiste sem tempo para falar
Era mais forte o que vinha da vida
Perdi-te sem tempo de te achar.

Rotina

Repetem-se os dias
numa cadência
insuportável.
O cinzento desbota-me
os olhares,
e as palavras morrem
nos lábios,
monossílabos singulares
sozinhos
que nada significam.
Os dias de chuva partem,
e os de sol
voltam e retornam,
nem o frio me trespassa,
nem mancho o colarinho
no calor dos dias
iguais.
Sou eu,
e o insuportável peso
de me ter;
e por mais que os olhos
se incendeiem
e te conheça nos desejos
que me acordam,
enquanto não voltes…
e me sacudas,
os dias incompletos
repletos de horas
repetem os acordes tristes
dos dias sem ti,
dos dias iguais

Retalhos das palavras

Porque os poemas são retalhos
Destas vestes que envergo
E da forma como as talho
E muitas vezes as carrego.

Nestes tempos da revolta
Sustenta-me o imaginário
Dum poema que se solta
Como folha de calendário

E cada palavra que escrevo
Faz parte do meu acervo
Dos sentimentos libertos

Em amores nunca contados
Perdidos e encobertos
Em livros nunca editados.

12.10.06

Um taça de amor

Teu corpo repousa
em mim,
na quietude dos momentos
que fizemos,
olho teus olhos desnudados,
a beleza de um corpo suado
do amor qu’inda agora tivemos.

Juntamos nossas mãos
com um sorriso,
nossas taças cheias
de um tinto roxo
reservado,
mosto saboroso
que degustamos
e deixamos nossos beijos
se trocar.

Sinto-te outra vez
a querer voar,
abrir tuas asas de águia
predadora,
devorar o céu
que nos abriga,
levar-me onde imagino
tu vais estar.

E no fim desta cadência
intemporal,
somos outra vez
corpos alados,
planando para além
do imaginário
dando-se sem reserva
sem limite,
sem outro destino
que nós mesmos.

... para ti T ...

Lisboa

Neste chão de mar e de partidas
Onde abri meus olhos p’ra te ver,
Nesta terra de mulheres e de cantigas
Onde o Sol se deita com prazer

È que respiro e me dou continuamente
À vida e às muralhas onde avistas
Vidas, vielas e toda a gente
Talhada no coração de artistas

E nos teus bairros vestidos de memórias
Onde um mouro já contou suas histórias
É que respiro o cheiro que de ti guardo

Em ti onde amando e me perdendo
Traço em folhas de Outono o teu fado
Onde te chamo Lisboa, sempre nascendo

Desejos

Teu corpo e o meu já se confundem
Meus dedos são os teus mensageiros
Preenchem os desejos que te pedem
Carícias e olhares são passageiros

Percorro o teu corpo de mulher
Lambuzo o toque doce dos teus seios
Te agarro e faço o que quiser
Tuas coxas penetradas sem rodeios

E quando ao final tu vais explodir
E susténs tudo o mais que vais sentir
Eu alago teu corpo e saio dele

Te calo a boca num beijo profundo
Colando meu corpo à tua pele
Sentindo que aqui parou o mundo.

Momentos nossos

Contemplo teu corpo, desnudado
Na penumbra pintada de desejo
Beijo teu corpo, enfeitiçado
Em gestos de amor com que te beijo

Nossas línguas falam, beijam, amam
Na força imensa que nos percorre
Nossos corpos desfalecem, brindam
ao vinho generoso que por nós escorre

dos teus seios, onde me refresco
dos teus olhos, onde me esqueço
que a vida tem sentidos proibidos

que o mundo não quer aprender
onde nós dois, quedamos possuídos
deste momento que ninguém pode vencer.

9.10.06

Nós

Vens-me à memória
no passar das imagens,
nas fotografias que fixo
nos olhares desencontrados.

Há uma cadência própria
dos tempos outonais,
das cores castanhas, ocres e douradas,
onde me delicio
na soberba
da preguiça,
enfeitiçado
junto à lareira que me acendes,
com que me aqueces.

Nas tuas mãos
tens dois copos
vinho tinto, maduro,
cheios.

Deitas-te a meu lado
com a indulgência dos amantes
percorres-me os lábios
perguntas-me se me queres

E eu dou-te as mãos
código dos amantes que se desejam
e lampejam teus olhos
e o brilho da noite
vai começando a ser nosso.

Se o silêncio

Se o silêncio de repente alastrasse,
E as palavras quedassem guardadas
Se cada som se perdesse
E as músicas fossem imaginadas

Se as nossas bocas por absurdo,
Nada dissessem, não falassem
E o mundo fosse vazio, surdo
E os amantes emudecessem

Também não ouviria clamores
Ignoraria todos os horrores
E os lamentos, e choros das crianças

E os ais gritados nas despedidas,
Calados, não trariam esperanças
De sarar por vez nossas feridas.

6.10.06

Soneto de uma manhã

Abraço-me a ti pela manhã
Sentindo tuas coxas enroladas
Debaixo dos teus mantos de lã
Lembrando nossas histórias guardadas

No sorriso com que acordas o meu ser
Nos gestos que inventas no meu peito
Desnudas-me o sentido do prazer
Nos desejos com que encho teu leito

E quando os teus seios pedem mais
E entro de rompante no teu cais
Amarras em teu porto o meu veleiro

Me prendes, me tomas como teu
Me entregas tua paixão maior que o céu
Neste amor maior que o mundo inteiro

Amor Selvagem

Murmuro de baixinho o teu nome
Nas tardes encantadas de Outono
Quando o frio se chega e o Sol some
E o amor anda à solta, já sem dono

Soltas tuas roupas, ficas nua
O carmim dos teus lábios me chamando
No leito da entrega, és a lua
Onde eu sou teu lobo, te adorando

E na selva dos desejos inventados
Somos corpos entregues, suados
Tocando, beijando, mordendo

Esgotados no calor desta verdade
De dois seres que em liberdade
Se amam até ao fim, mesmo morrendo.