17.10.06

Retalhos das palavras

Porque os poemas são retalhos
Destas vestes que envergo
E da forma como as talho
E muitas vezes as carrego.

Nestes tempos da revolta
Sustenta-me o imaginário
Dum poema que se solta
Como folha de calendário

E cada palavra que escrevo
Faz parte do meu acervo
Dos sentimentos libertos

Em amores nunca contados
Perdidos e encobertos
Em livros nunca editados.

12.10.06

Um taça de amor

Teu corpo repousa
em mim,
na quietude dos momentos
que fizemos,
olho teus olhos desnudados,
a beleza de um corpo suado
do amor qu’inda agora tivemos.

Juntamos nossas mãos
com um sorriso,
nossas taças cheias
de um tinto roxo
reservado,
mosto saboroso
que degustamos
e deixamos nossos beijos
se trocar.

Sinto-te outra vez
a querer voar,
abrir tuas asas de águia
predadora,
devorar o céu
que nos abriga,
levar-me onde imagino
tu vais estar.

E no fim desta cadência
intemporal,
somos outra vez
corpos alados,
planando para além
do imaginário
dando-se sem reserva
sem limite,
sem outro destino
que nós mesmos.

... para ti T ...

Lisboa

Neste chão de mar e de partidas
Onde abri meus olhos p’ra te ver,
Nesta terra de mulheres e de cantigas
Onde o Sol se deita com prazer

È que respiro e me dou continuamente
À vida e às muralhas onde avistas
Vidas, vielas e toda a gente
Talhada no coração de artistas

E nos teus bairros vestidos de memórias
Onde um mouro já contou suas histórias
É que respiro o cheiro que de ti guardo

Em ti onde amando e me perdendo
Traço em folhas de Outono o teu fado
Onde te chamo Lisboa, sempre nascendo

Desejos

Teu corpo e o meu já se confundem
Meus dedos são os teus mensageiros
Preenchem os desejos que te pedem
Carícias e olhares são passageiros

Percorro o teu corpo de mulher
Lambuzo o toque doce dos teus seios
Te agarro e faço o que quiser
Tuas coxas penetradas sem rodeios

E quando ao final tu vais explodir
E susténs tudo o mais que vais sentir
Eu alago teu corpo e saio dele

Te calo a boca num beijo profundo
Colando meu corpo à tua pele
Sentindo que aqui parou o mundo.

Momentos nossos

Contemplo teu corpo, desnudado
Na penumbra pintada de desejo
Beijo teu corpo, enfeitiçado
Em gestos de amor com que te beijo

Nossas línguas falam, beijam, amam
Na força imensa que nos percorre
Nossos corpos desfalecem, brindam
ao vinho generoso que por nós escorre

dos teus seios, onde me refresco
dos teus olhos, onde me esqueço
que a vida tem sentidos proibidos

que o mundo não quer aprender
onde nós dois, quedamos possuídos
deste momento que ninguém pode vencer.

9.10.06

Nós

Vens-me à memória
no passar das imagens,
nas fotografias que fixo
nos olhares desencontrados.

Há uma cadência própria
dos tempos outonais,
das cores castanhas, ocres e douradas,
onde me delicio
na soberba
da preguiça,
enfeitiçado
junto à lareira que me acendes,
com que me aqueces.

Nas tuas mãos
tens dois copos
vinho tinto, maduro,
cheios.

Deitas-te a meu lado
com a indulgência dos amantes
percorres-me os lábios
perguntas-me se me queres

E eu dou-te as mãos
código dos amantes que se desejam
e lampejam teus olhos
e o brilho da noite
vai começando a ser nosso.

Se o silêncio

Se o silêncio de repente alastrasse,
E as palavras quedassem guardadas
Se cada som se perdesse
E as músicas fossem imaginadas

Se as nossas bocas por absurdo,
Nada dissessem, não falassem
E o mundo fosse vazio, surdo
E os amantes emudecessem

Também não ouviria clamores
Ignoraria todos os horrores
E os lamentos, e choros das crianças

E os ais gritados nas despedidas,
Calados, não trariam esperanças
De sarar por vez nossas feridas.

6.10.06

Soneto de uma manhã

Abraço-me a ti pela manhã
Sentindo tuas coxas enroladas
Debaixo dos teus mantos de lã
Lembrando nossas histórias guardadas

No sorriso com que acordas o meu ser
Nos gestos que inventas no meu peito
Desnudas-me o sentido do prazer
Nos desejos com que encho teu leito

E quando os teus seios pedem mais
E entro de rompante no teu cais
Amarras em teu porto o meu veleiro

Me prendes, me tomas como teu
Me entregas tua paixão maior que o céu
Neste amor maior que o mundo inteiro

Amor Selvagem

Murmuro de baixinho o teu nome
Nas tardes encantadas de Outono
Quando o frio se chega e o Sol some
E o amor anda à solta, já sem dono

Soltas tuas roupas, ficas nua
O carmim dos teus lábios me chamando
No leito da entrega, és a lua
Onde eu sou teu lobo, te adorando

E na selva dos desejos inventados
Somos corpos entregues, suados
Tocando, beijando, mordendo

Esgotados no calor desta verdade
De dois seres que em liberdade
Se amam até ao fim, mesmo morrendo.

2.10.06

Não sei quem és

porque não sei quem és,
e ao mesmo tempo te conheço,
porque nunca te desvendas,
e os pássaros poisam em ti,
hipnotizados do vento fresco
que sai dos teus lábios.
porque te possuo
em cada letra que pariste
do teu coração
onde rebentam as águas
de uma dor afogada,
porque me mostras as paisagens
de um ser livre
que não se arrebanha,
e teus pés caminham
no teu único sentido,
porque lês os teus livros
e me entregas as tuas frases
sem citação
porque me passas ao lado
como se tivesses falado comigo
de manhã ao acordar,
porque te persigo
na inebriante sensação
de que és tu,
aqui estou
deixando-me aos teus pés.

Busca eterna

No transe
dos dias que se gastam,
chovem dentro de mim
pensamentos soltos
que me constroem e
destroem.
Acordo e adormeço
no mesmo instante,
chegado de um sonho
que sempre se atrasa,
e por fim se senta à minha beira
cansado,
de tanto correr.
São mil imagens,
o cansaço dos sons
os teus seios soltos,
botões mecânicos
ligam e desligam,
- os olhos piscando
repetem
os quotidianos insensíveis,
e de volta ao silêncio,
abraçado na penumbra,
sei de certeza,
que um único desejo
persiste:
- uma única angústia
busca,
uma única mão
se fecha num querer
inenarrável,
inexplicável
do que na verdade
te peço:
- do que na vida quero
- do que da vida tenho
o insondável mistério
do que queremos
e nunca haveremos de
encontrar.

O tempo da vida

(para ti, relamp)

E eu por aqui,
sem saber das tuas histórias,
invento-te
como se fosses parte
do meu caminho,
como se percorresse contigo
as estradas que nos levam
à fogueira
onde ao redor nos encontramos
e nas palavras trocadas
trocamos os beijos
e as vontades
de sermos sempre assim,
portos do mesmo barco
desatracando da vida.

27.9.06

Lembranças

Lembro-me dos teus olhos,
desponta um momento
de sentida dôr,
que o coração sente,
como uma vaga que rompe,
na areia onde se espraia,
solidão fria, aguda,
penetrando a sombra,
onde o dia arrefece.

Lembro-me dos teus olhos,
de um esgar no sorriso,
cosmético,
enfeite das rugas -
da expressão de ausência
com que me deixaste.
Permaneço inteiro,
as mãos com a força
com que te espero,
talvez tomar-te.
Talvez um dia,
no teu regresso.