Teu corpo e o meu já se confundem
Meus dedos são os teus mensageiros
Preenchem os desejos que te pedem
Carícias e olhares são passageiros
Percorro o teu corpo de mulher
Lambuzo o toque doce dos teus seios
Te agarro e faço o que quiser
Tuas coxas penetradas sem rodeios
E quando ao final tu vais explodir
E susténs tudo o mais que vais sentir
Eu alago teu corpo e saio dele
Te calo a boca num beijo profundo
Colando meu corpo à tua pele
Sentindo que aqui parou o mundo.
As palavras, revelam pensamentos. Os pensamentos revelam a alma, e cada alma, o verdadeiro ser que faz deste mundo um constante devir...
12.10.06
Momentos nossos
Contemplo teu corpo, desnudado
Na penumbra pintada de desejo
Beijo teu corpo, enfeitiçado
Em gestos de amor com que te beijo
Nossas línguas falam, beijam, amam
Na força imensa que nos percorre
Nossos corpos desfalecem, brindam
ao vinho generoso que por nós escorre
dos teus seios, onde me refresco
dos teus olhos, onde me esqueço
que a vida tem sentidos proibidos
que o mundo não quer aprender
onde nós dois, quedamos possuídos
deste momento que ninguém pode vencer.
Na penumbra pintada de desejo
Beijo teu corpo, enfeitiçado
Em gestos de amor com que te beijo
Nossas línguas falam, beijam, amam
Na força imensa que nos percorre
Nossos corpos desfalecem, brindam
ao vinho generoso que por nós escorre
dos teus seios, onde me refresco
dos teus olhos, onde me esqueço
que a vida tem sentidos proibidos
que o mundo não quer aprender
onde nós dois, quedamos possuídos
deste momento que ninguém pode vencer.
9.10.06
Nós
Vens-me à memória
no passar das imagens,
nas fotografias que fixo
nos olhares desencontrados.
Há uma cadência própria
dos tempos outonais,
das cores castanhas, ocres e douradas,
onde me delicio
na soberba
da preguiça,
enfeitiçado
junto à lareira que me acendes,
com que me aqueces.
Nas tuas mãos
tens dois copos
vinho tinto, maduro,
cheios.
Deitas-te a meu lado
com a indulgência dos amantes
percorres-me os lábios
perguntas-me se me queres
E eu dou-te as mãos
código dos amantes que se desejam
e lampejam teus olhos
e o brilho da noite
vai começando a ser nosso.
no passar das imagens,
nas fotografias que fixo
nos olhares desencontrados.
Há uma cadência própria
dos tempos outonais,
das cores castanhas, ocres e douradas,
onde me delicio
na soberba
da preguiça,
enfeitiçado
junto à lareira que me acendes,
com que me aqueces.
Nas tuas mãos
tens dois copos
vinho tinto, maduro,
cheios.
Deitas-te a meu lado
com a indulgência dos amantes
percorres-me os lábios
perguntas-me se me queres
E eu dou-te as mãos
código dos amantes que se desejam
e lampejam teus olhos
e o brilho da noite
vai começando a ser nosso.
Se o silêncio
Se o silêncio de repente alastrasse,
E as palavras quedassem guardadas
Se cada som se perdesse
E as músicas fossem imaginadas
Se as nossas bocas por absurdo,
Nada dissessem, não falassem
E o mundo fosse vazio, surdo
E os amantes emudecessem
Também não ouviria clamores
Ignoraria todos os horrores
E os lamentos, e choros das crianças
E os ais gritados nas despedidas,
Calados, não trariam esperanças
De sarar por vez nossas feridas.
E as palavras quedassem guardadas
Se cada som se perdesse
E as músicas fossem imaginadas
Se as nossas bocas por absurdo,
Nada dissessem, não falassem
E o mundo fosse vazio, surdo
E os amantes emudecessem
Também não ouviria clamores
Ignoraria todos os horrores
E os lamentos, e choros das crianças
E os ais gritados nas despedidas,
Calados, não trariam esperanças
De sarar por vez nossas feridas.
6.10.06
Soneto de uma manhã
Abraço-me a ti pela manhã
Sentindo tuas coxas enroladas
Debaixo dos teus mantos de lã
Lembrando nossas histórias guardadas
No sorriso com que acordas o meu ser
Nos gestos que inventas no meu peito
Desnudas-me o sentido do prazer
Nos desejos com que encho teu leito
E quando os teus seios pedem mais
E entro de rompante no teu cais
Amarras em teu porto o meu veleiro
Me prendes, me tomas como teu
Me entregas tua paixão maior que o céu
Neste amor maior que o mundo inteiro
Sentindo tuas coxas enroladas
Debaixo dos teus mantos de lã
Lembrando nossas histórias guardadas
No sorriso com que acordas o meu ser
Nos gestos que inventas no meu peito
Desnudas-me o sentido do prazer
Nos desejos com que encho teu leito
E quando os teus seios pedem mais
E entro de rompante no teu cais
Amarras em teu porto o meu veleiro
Me prendes, me tomas como teu
Me entregas tua paixão maior que o céu
Neste amor maior que o mundo inteiro
Amor Selvagem
Murmuro de baixinho o teu nome
Nas tardes encantadas de Outono
Quando o frio se chega e o Sol some
E o amor anda à solta, já sem dono
Soltas tuas roupas, ficas nua
O carmim dos teus lábios me chamando
No leito da entrega, és a lua
Onde eu sou teu lobo, te adorando
E na selva dos desejos inventados
Somos corpos entregues, suados
Tocando, beijando, mordendo
Esgotados no calor desta verdade
De dois seres que em liberdade
Se amam até ao fim, mesmo morrendo.
Nas tardes encantadas de Outono
Quando o frio se chega e o Sol some
E o amor anda à solta, já sem dono
Soltas tuas roupas, ficas nua
O carmim dos teus lábios me chamando
No leito da entrega, és a lua
Onde eu sou teu lobo, te adorando
E na selva dos desejos inventados
Somos corpos entregues, suados
Tocando, beijando, mordendo
Esgotados no calor desta verdade
De dois seres que em liberdade
Se amam até ao fim, mesmo morrendo.
2.10.06
Não sei quem és
porque não sei quem és,
e ao mesmo tempo te conheço,
porque nunca te desvendas,
e os pássaros poisam em ti,
hipnotizados do vento fresco
que sai dos teus lábios.
porque te possuo
em cada letra que pariste
do teu coração
onde rebentam as águas
de uma dor afogada,
porque me mostras as paisagens
de um ser livre
que não se arrebanha,
e teus pés caminham
no teu único sentido,
porque lês os teus livros
e me entregas as tuas frases
sem citação
porque me passas ao lado
como se tivesses falado comigo
de manhã ao acordar,
porque te persigo
na inebriante sensação
de que és tu,
aqui estou
deixando-me aos teus pés.
e ao mesmo tempo te conheço,
porque nunca te desvendas,
e os pássaros poisam em ti,
hipnotizados do vento fresco
que sai dos teus lábios.
porque te possuo
em cada letra que pariste
do teu coração
onde rebentam as águas
de uma dor afogada,
porque me mostras as paisagens
de um ser livre
que não se arrebanha,
e teus pés caminham
no teu único sentido,
porque lês os teus livros
e me entregas as tuas frases
sem citação
porque me passas ao lado
como se tivesses falado comigo
de manhã ao acordar,
porque te persigo
na inebriante sensação
de que és tu,
aqui estou
deixando-me aos teus pés.
Busca eterna
No transe
dos dias que se gastam,
chovem dentro de mim
pensamentos soltos
que me constroem e
destroem.
Acordo e adormeço
no mesmo instante,
chegado de um sonho
que sempre se atrasa,
e por fim se senta à minha beira
cansado,
de tanto correr.
São mil imagens,
o cansaço dos sons
os teus seios soltos,
botões mecânicos
ligam e desligam,
- os olhos piscando
repetem
os quotidianos insensíveis,
e de volta ao silêncio,
abraçado na penumbra,
sei de certeza,
que um único desejo
persiste:
- uma única angústia
busca,
uma única mão
se fecha num querer
inenarrável,
inexplicável
do que na verdade
te peço:
- do que na vida quero
- do que da vida tenho
o insondável mistério
do que queremos
e nunca haveremos de
encontrar.
dos dias que se gastam,
chovem dentro de mim
pensamentos soltos
que me constroem e
destroem.
Acordo e adormeço
no mesmo instante,
chegado de um sonho
que sempre se atrasa,
e por fim se senta à minha beira
cansado,
de tanto correr.
São mil imagens,
o cansaço dos sons
os teus seios soltos,
botões mecânicos
ligam e desligam,
- os olhos piscando
repetem
os quotidianos insensíveis,
e de volta ao silêncio,
abraçado na penumbra,
sei de certeza,
que um único desejo
persiste:
- uma única angústia
busca,
uma única mão
se fecha num querer
inenarrável,
inexplicável
do que na verdade
te peço:
- do que na vida quero
- do que da vida tenho
o insondável mistério
do que queremos
e nunca haveremos de
encontrar.
O tempo da vida
(para ti, relamp)
E eu por aqui,
sem saber das tuas histórias,
invento-te
como se fosses parte
do meu caminho,
como se percorresse contigo
as estradas que nos levam
à fogueira
onde ao redor nos encontramos
e nas palavras trocadas
trocamos os beijos
e as vontades
de sermos sempre assim,
portos do mesmo barco
desatracando da vida.
E eu por aqui,
sem saber das tuas histórias,
invento-te
como se fosses parte
do meu caminho,
como se percorresse contigo
as estradas que nos levam
à fogueira
onde ao redor nos encontramos
e nas palavras trocadas
trocamos os beijos
e as vontades
de sermos sempre assim,
portos do mesmo barco
desatracando da vida.
27.9.06
Lembranças
Lembro-me dos teus olhos,
desponta um momento
de sentida dôr,
que o coração sente,
como uma vaga que rompe,
na areia onde se espraia,
solidão fria, aguda,
penetrando a sombra,
onde o dia arrefece.
Lembro-me dos teus olhos,
de um esgar no sorriso,
cosmético,
enfeite das rugas -
da expressão de ausência
com que me deixaste.
Permaneço inteiro,
as mãos com a força
com que te espero,
talvez tomar-te.
Talvez um dia,
no teu regresso.
desponta um momento
de sentida dôr,
que o coração sente,
como uma vaga que rompe,
na areia onde se espraia,
solidão fria, aguda,
penetrando a sombra,
onde o dia arrefece.
Lembro-me dos teus olhos,
de um esgar no sorriso,
cosmético,
enfeite das rugas -
da expressão de ausência
com que me deixaste.
Permaneço inteiro,
as mãos com a força
com que te espero,
talvez tomar-te.
Talvez um dia,
no teu regresso.
13.9.06
Um Homem e uma Mulher - A despedida
O Homem percebeu que ela se levantava, sentiu o roçar dos lençóis por aquela pele macia e quente que tocara voluptuosamente. Os olhos semi-abertos, o torpor de uma noite selvagem e inenarrável acariciou-o, e os seus lábios retomaram húmidos a memória de cada beijo dado, a impaciência dos gestos que se inventavam. O seu corpo sentiu-se desligado do outro que fora seu, e percebeu a manhã, o fim de uma noite que talvez não voltasse. Remeteu ao silêncio todo o seu corpo, concentrou-se na respiração dela, quis percebê-la antes de falar e perceber onde ela estava.
Não foi preciso.
- Ali estava ela, debruçada sobre ele, os seus seios doando-se, os seus cabelos afagando-o.
- Vou-me embora, já é tarde.
- Porque não ficas, depois levo-te… Espera…
- Não, não vale a pena, tenho de ir.
A Mulher saiu dele, endireitou-se e sorriu, e depois como se já tivesse ensaiado aquele discurso, rematou certeira a incontável questão:
- porque me falas em esperar?
A Mulher vestindo-se, foi caminhando para longe dos seus braços, sabendo o quanto era importante aquela conversa, aquela derradeira conversa.
- Porque me falas de esperar, quando o que sinto é a presença constante de nos termos?
- Falas-me de parares num qualquer cais, como se a vida não fosse um constante movimento…
- Se eu gosto de estar contigo, de te fazer feliz - disse o Homem - como não te pedir que fiques?
- Mas aquela Mulher, estava decidida a não esperar, e logo adiantou:
- Não, não é esse o caminho que quero. Apenas percebe o quanto a vida nos cria barreiras incontornáveis, como não podemos abdicar das amarras que temos. Não consigo encontrar espaço, por isso falo em voar, em me manter à tona do que neste momento é impossível. Há sempre espaço para a fuga, mas a fuga sem ser assumida, transforma-se em voltas em círculo, transforma-se num desespero, onde os momentos já não são aquilo que aceitámos, mas são um caminhar constante rumo ao imaginário.
Só que a vida é real de mais para que eu aceite este tipo de caminhos.
A Mulher meneou a cabeça, dando um jeito no seu cabelo, escovando-o com a força das suas palavras, olhando o espelho, como se a primeira pessoa que quisesse convencer fosse mesmo ela. Os seus seios já cobertos, a pequena tanga dando o contorno às suas coxas, desenhavam a força daquele momento.
O Homem pensava e desejava-a no mesmo momento. Queria-a e queria-a perceber. Não sabia qual a razão que iria vencer. Abandonou-se na cama, imóvel, escutando-a… as palavras dela, entravam nele, e dominavam-no como se algemas fossem…
- Eu sei o que o meu coração guarda, sei o quanto é bom pensar, sonhar, tocar-te, ter-te. Mas não consigo sair daqui. Não sei chamar-te de meu amor, porque o amor é incondicional, não se verga ao medo da clandestinidade, dos episódios fugazes, dos quartos escondidos, de não querer acordar barulhos que nos denunciam. Sim, não sei ainda chamar-te de meu amor, porque não me sinto tua, porque não posso dar-me na plenitude.
O Homem percebeu o quanto tinha disposto dela, forçando-a à sua vontade, ao esquecimento das regras com que se enfrenta a vida, a deixar uma outra história incompleta, a fazer perigar um outro destino.
Mas a sua vontade despedaçava-lhe qualquer pensamento, que não a vontade de a ter. Calou-a, sem mesmo lhe dizer nada, estendendo-lhe o olhar de um amante, que pede, e falou:
- Um dia disseste, clara e lúcida, que rejeitas ser amante, que és plena e de corpo inteiro, exactamente o mesmo que eu penso, e para o qual não quero prosseguir. Não me aceito a dividir-te, não me percebo dividido. Existe um frémito de magia nas minhas mãos, que se torna real no teu corpo, na forma como nos demos, no sabor do teu corpo estendido sobre o meu. Isto, ninguém nos tira, e por isso fico acordado a todas as horas, mas numa espera que não tem hora, que não tem ritmo, que se transborda apenas no momento certo, no momento que poderá existir, mas que nasce do nada, que nasce da vontade, e essa vontade, e esse desejo, são as coisas que permanecem. Tudo o resto são dores e sofridas vontades sem lugar.
A Mulher recolheu-se nas lágrimas que a paixão sempre faz transbordar, percebendo o quanto seria difícil guardar aquelas palavras, aquele leito, aquele quarto, aquele Homem. Não quis dizer adeus, não quis fugir, sabendo que não poderia ficar. Aproximou-se mais uma vez, já vestida, já tratada, olhou-o, com o fino olhar sem distâncias, a boca quase colada à dele, com a infíma distância que lhe permitia falar, e sussurrando, entregou-lhe as derradeiras palavras que lhe podia entregar:
- Sei onde estás, sei onde te procurar, sei que será melhor repousares nesta terra firme onde te sentes com mais espaço, com mais serenidade. Não, não te acordarei aos primeiros raios da manhã. Esperarei pelas noites mais frias, pelos meus dedos frios, que te querem no quente do teu leito. Esperarei que os teus olhos me queiram e saibam dizer sim, apenas quando o sim for dividido entre nós, sem barreiras, sem projectos, sem nada que nos possa cobrar um destino diferente, daquele que já a vida nos escolheu.
Por agora, apenas serei tua, onde mais importa, em cada memória, em cada pensamento, nas nossas canções, nas praças de todas as cidades onde fomos felizes. Tu ficarás aqui, e eu recordarei sempre esse teu peito pronto para mim, esse lugar vazio onde só eu caibo. O Homem entendeu que a tinha perdido, que a tinha possuído pela última vez, que a mais grata amante de sempre lhe fugia dos dedos, como a água transparente das cascatas, como as marés que nunca se podem travar. Olhou-a com a ternura que tudo tem quando acaba, quis senti-la uma última vez, recordar aquele rosto, tomá-lo para toda uma vida. E com a esperança de quem ama, antes que aquela Mulher fugisse, deixou-lhe nas mãos um último recado, com um beijo e um esgar de saudade que golpeava o seu coração:
- Fica nesse teu cais, eu irei como sempre navegando de porto em porto, colhendo a vida dos pedaços que ela tem para mim, retornarei sempre a esse abrigo, onde sei, te terei à minha espera, sem saberes o dia que voltarei. Voltarei, e tu serás sempre o meu porto. E se o vento estiver levantado, se a noite for muito escura, acende à janela o teu coração, que eu mesmo de longe, saberei quando voltar...
Na ombreira da porta, o rosto escondido, o coração tremendo, ele viu pela última vez o seu amor. Aspirou o perfume generoso dos lençóis, o cheiro daquela mulher, e soube que um amor daqueles, não tem volta, mas que a memória há-de sempre viver enquanto cada Homem, quiser a sua Mulher.
Não foi preciso.
- Ali estava ela, debruçada sobre ele, os seus seios doando-se, os seus cabelos afagando-o.
- Vou-me embora, já é tarde.
- Porque não ficas, depois levo-te… Espera…
- Não, não vale a pena, tenho de ir.
A Mulher saiu dele, endireitou-se e sorriu, e depois como se já tivesse ensaiado aquele discurso, rematou certeira a incontável questão:
- porque me falas em esperar?
A Mulher vestindo-se, foi caminhando para longe dos seus braços, sabendo o quanto era importante aquela conversa, aquela derradeira conversa.
- Porque me falas de esperar, quando o que sinto é a presença constante de nos termos?
- Falas-me de parares num qualquer cais, como se a vida não fosse um constante movimento…
- Se eu gosto de estar contigo, de te fazer feliz - disse o Homem - como não te pedir que fiques?
- Mas aquela Mulher, estava decidida a não esperar, e logo adiantou:
- Não, não é esse o caminho que quero. Apenas percebe o quanto a vida nos cria barreiras incontornáveis, como não podemos abdicar das amarras que temos. Não consigo encontrar espaço, por isso falo em voar, em me manter à tona do que neste momento é impossível. Há sempre espaço para a fuga, mas a fuga sem ser assumida, transforma-se em voltas em círculo, transforma-se num desespero, onde os momentos já não são aquilo que aceitámos, mas são um caminhar constante rumo ao imaginário.
Só que a vida é real de mais para que eu aceite este tipo de caminhos.
A Mulher meneou a cabeça, dando um jeito no seu cabelo, escovando-o com a força das suas palavras, olhando o espelho, como se a primeira pessoa que quisesse convencer fosse mesmo ela. Os seus seios já cobertos, a pequena tanga dando o contorno às suas coxas, desenhavam a força daquele momento.
O Homem pensava e desejava-a no mesmo momento. Queria-a e queria-a perceber. Não sabia qual a razão que iria vencer. Abandonou-se na cama, imóvel, escutando-a… as palavras dela, entravam nele, e dominavam-no como se algemas fossem…
- Eu sei o que o meu coração guarda, sei o quanto é bom pensar, sonhar, tocar-te, ter-te. Mas não consigo sair daqui. Não sei chamar-te de meu amor, porque o amor é incondicional, não se verga ao medo da clandestinidade, dos episódios fugazes, dos quartos escondidos, de não querer acordar barulhos que nos denunciam. Sim, não sei ainda chamar-te de meu amor, porque não me sinto tua, porque não posso dar-me na plenitude.
O Homem percebeu o quanto tinha disposto dela, forçando-a à sua vontade, ao esquecimento das regras com que se enfrenta a vida, a deixar uma outra história incompleta, a fazer perigar um outro destino.
Mas a sua vontade despedaçava-lhe qualquer pensamento, que não a vontade de a ter. Calou-a, sem mesmo lhe dizer nada, estendendo-lhe o olhar de um amante, que pede, e falou:
- Um dia disseste, clara e lúcida, que rejeitas ser amante, que és plena e de corpo inteiro, exactamente o mesmo que eu penso, e para o qual não quero prosseguir. Não me aceito a dividir-te, não me percebo dividido. Existe um frémito de magia nas minhas mãos, que se torna real no teu corpo, na forma como nos demos, no sabor do teu corpo estendido sobre o meu. Isto, ninguém nos tira, e por isso fico acordado a todas as horas, mas numa espera que não tem hora, que não tem ritmo, que se transborda apenas no momento certo, no momento que poderá existir, mas que nasce do nada, que nasce da vontade, e essa vontade, e esse desejo, são as coisas que permanecem. Tudo o resto são dores e sofridas vontades sem lugar.
A Mulher recolheu-se nas lágrimas que a paixão sempre faz transbordar, percebendo o quanto seria difícil guardar aquelas palavras, aquele leito, aquele quarto, aquele Homem. Não quis dizer adeus, não quis fugir, sabendo que não poderia ficar. Aproximou-se mais uma vez, já vestida, já tratada, olhou-o, com o fino olhar sem distâncias, a boca quase colada à dele, com a infíma distância que lhe permitia falar, e sussurrando, entregou-lhe as derradeiras palavras que lhe podia entregar:
- Sei onde estás, sei onde te procurar, sei que será melhor repousares nesta terra firme onde te sentes com mais espaço, com mais serenidade. Não, não te acordarei aos primeiros raios da manhã. Esperarei pelas noites mais frias, pelos meus dedos frios, que te querem no quente do teu leito. Esperarei que os teus olhos me queiram e saibam dizer sim, apenas quando o sim for dividido entre nós, sem barreiras, sem projectos, sem nada que nos possa cobrar um destino diferente, daquele que já a vida nos escolheu.
Por agora, apenas serei tua, onde mais importa, em cada memória, em cada pensamento, nas nossas canções, nas praças de todas as cidades onde fomos felizes. Tu ficarás aqui, e eu recordarei sempre esse teu peito pronto para mim, esse lugar vazio onde só eu caibo. O Homem entendeu que a tinha perdido, que a tinha possuído pela última vez, que a mais grata amante de sempre lhe fugia dos dedos, como a água transparente das cascatas, como as marés que nunca se podem travar. Olhou-a com a ternura que tudo tem quando acaba, quis senti-la uma última vez, recordar aquele rosto, tomá-lo para toda uma vida. E com a esperança de quem ama, antes que aquela Mulher fugisse, deixou-lhe nas mãos um último recado, com um beijo e um esgar de saudade que golpeava o seu coração:
- Fica nesse teu cais, eu irei como sempre navegando de porto em porto, colhendo a vida dos pedaços que ela tem para mim, retornarei sempre a esse abrigo, onde sei, te terei à minha espera, sem saberes o dia que voltarei. Voltarei, e tu serás sempre o meu porto. E se o vento estiver levantado, se a noite for muito escura, acende à janela o teu coração, que eu mesmo de longe, saberei quando voltar...
Na ombreira da porta, o rosto escondido, o coração tremendo, ele viu pela última vez o seu amor. Aspirou o perfume generoso dos lençóis, o cheiro daquela mulher, e soube que um amor daqueles, não tem volta, mas que a memória há-de sempre viver enquanto cada Homem, quiser a sua Mulher.
7.9.06
Ao cair da noite
Foge-me o tempo
entre os dedos
e os meus dias
são histórias breves
reveladas
repetidas.
No cair da noite
desce no meu peito
a tua ausência
e o teu silêncio
grita
estrondosamente
o quanto insisto em que me faltes,
e que digas a toda a gente
dos meus olhos cansados
meus braços caídos.
Meu corpo desce
em queda livre
amparado ao sofá de sempre,
o meu copo sempre vazio
bebe as palavras
que recuso guardar.
Ao cair da noite
a cama cínica,
vazia,
fria - guardada.
Os lençois ainda dobrados
cobertos da tua memória.
No cair da noite
não há hora
de a madrugada
voltar.
entre os dedos
e os meus dias
são histórias breves
reveladas
repetidas.
No cair da noite
desce no meu peito
a tua ausência
e o teu silêncio
grita
estrondosamente
o quanto insisto em que me faltes,
e que digas a toda a gente
dos meus olhos cansados
meus braços caídos.
Meu corpo desce
em queda livre
amparado ao sofá de sempre,
o meu copo sempre vazio
bebe as palavras
que recuso guardar.
Ao cair da noite
a cama cínica,
vazia,
fria - guardada.
Os lençois ainda dobrados
cobertos da tua memória.
No cair da noite
não há hora
de a madrugada
voltar.
28.8.06
Olhares
Os olhos tocam-se
magnânimes,
despertam a vontade
de te ter,
e na linguagem parada
dos sinais,
dos códigos
inventados no momento,
construo a vontade
de dizer,
o que o fundo dos teus olhos
já me disse,
a volta da alma
que não fala
e me perde
na questão irrespondida,
que os tempos
são outros
são passado,
e meus olhos gastos
não atingem,
os teus olhos já não olham
já não vêem
são doutros olhos
o que olho
e não entendo.
magnânimes,
despertam a vontade
de te ter,
e na linguagem parada
dos sinais,
dos códigos
inventados no momento,
construo a vontade
de dizer,
o que o fundo dos teus olhos
já me disse,
a volta da alma
que não fala
e me perde
na questão irrespondida,
que os tempos
são outros
são passado,
e meus olhos gastos
não atingem,
os teus olhos já não olham
já não vêem
são doutros olhos
o que olho
e não entendo.
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