17.7.06

Verão quente

O Verão
quente
suado,
amolece-me os sentidos,
traz-me o teu retrato,
devolve-me
a certeza da ausência
queima-me...
os meus passos embaraçados
estacam
no cais
onde os trens partem
e chegam,
velozes de esperar
porque a vontade
de te ter
é ainda mais forte
que o desespero da realidade....
Na urgência da fantasia
que me apressa
enxugo o suor,
amasso-o nos dedos,
teu retrato junto,
a vida dolente,
o calor subindo,
rendido,
que as lembranças
'inda refrescam.

11.7.06

Na pressa do caminho

Na pressa do caminho
que enfrento
pelos sítios já trilhados,
carrego no ombro
o meu bordal
pleno
das memórias
já guardadas,
risos e lembranças
inesquecíveis momentos,
vozes que me tocaram,
gestos desmembrados
multidões roucas,
rios inesgotaveis que passamos
para margens onde
a descoberta
sabia a amores novos.
Coisas inexplicáveis,
gente de outros mundos
que me construiram,
pessoas incomparáveis.
na singularidade da diferença.
o mistério
do preto e branco
da noite e do dia,
das sinfonias que me arrepiam
e me fecham os olhos.
Na pressa do caminho
tenho tempos de espera
inesquecíveis
inexplicáveis
incomparáveis,
na pressa do caminho
tenho a vida que passa
e dou-lhe o braço
fazendo-me caminheiro
deste velho caminho.

4.7.06

Dias de Timor

Calam-se as vozes
pequenas,
onde os sorrisos fazem falta,
e os sonhos outrora
já desfeitos,
voltam a ser
fantasmas da nova aurora.
Uns passaram,
outros vieram,
botas cardadas,
senhores de qualquer terra,
deixando aos que lá
nasceram,
o fruto de um sangue
derramado,
olhos tristes, incertos
sementes calcadas
sem futuro,
que o dia
se vive longamente
no abstracto reino
deste muro,
que a toda a hora
se levanta,
que a toda a hora
nos espanta,
num sofrimento sem medida
num mare de crude
inventado,
Timor sempre no peito
Lorosae, quando serás resgatado?

Deste canto

Deste canto
onde me sento à mesa
olhando o teu lugar
vazio
à minha frente,
Deste canto
onde entretenho
o coração
em desejos esbanjados,
deste canto
é que te entrego
estas letras
forradas de carinho,
plenas de uma paixão
que entoo
murmurando teu nome.
Deste canto
encho a nossa praça
num fluir
quente e cheio
dos sentimentos
com que me tocas
com que me enches
com que me constróis
e me fazes sentir
o quanto amo
a presença inquieta
com que te vivo.

29.6.06

E se...

Se tudo fosse o que quero,
se os sorrisos me quisessem,
e a liberdade jorrasse
em cada fonte.
E se o tempo fosse imortal.
E se as vozes se calassem
nos pedestais
da miséria,
e tu passasses diante de mim
com as mãos estendidas.
E se o Sol se abrisse
nos olhos encovados
dos que não sonham.
E se cada poema
fosse pão,
E se cada razão
tivesse a côr da inocência.
E se cada pai
olhasse os filhos,
e os filhos contemplassem
as mães,
como regaços de maresia,
onde se colhe o amor.
E se as palavras não se soltassem
como gritos
de socorro.
E se fosses tu,
aqui ao pé,
a falar de amor,
tudo seria como eu quero.

Encontro


foto de Harjeet Heer

Cheguei tarde a uma praça já cheia de gente. Como sempre, tinha marcado uma hora que não era a tua. Avistei-te ao longe, a tua expressão não me assustou, estavas serena, despreocupada, gozando o momento daquela praça cheia de gente, cheia do Sol tépido da manhã. Achei-te linda, irradiavas a luminosidade dos "close-up" de filmes antigos, o teu vestido lilás denunciava a tua graciosidade, na forma como olhaste em redor, procurando na espera. Por um momento, o medo de perder-te, de te fazer esperar. No seguinte, a força de te contemplar, fez-me ficar mais um momento. Os teus braços, como numa dança, levavam as mãos ao teu cabelo, juntavam-no num tronco castanho dourado, antevendo teu pescoço onde os meus beijos repousariam, enquanto te segredaria ao ouvido o quanto te amo.
Sentada nas escadas baixas do chafariz que acomodava a praça, sorrias, entretida com meia dúzia de pombos que bicavam migalhas espalhadas pelo chão, e novamente olhaste procurando, como com vontade de apenas olhar. Tua mão, procurou o interior da tua bolsa, saiu de lá o teu caderno azul, a tua caneta que juraste nunca perder, por ser a companheira de todas as horas. Abrias os olhos numa expressão devoradora, interpretavas imagens, desconcertavas as palavras. De repente estava do teu lado, um sorriso esperava-me, um beijo apaixonado trocado, as desculpas do tempo perdido sem ti.
Sentei-me nas tuas escadas. O teu poema obrigou ao meu silêncio, do teu lado, da vida que amo, dum Mundo imaginado, inesperado, desta praça mágica, onde sempre estás. Olá Poesia, que bom rever-te.

Canto incontornável

Meus pés descalços
afagam o soalho
frio
no meu canto,
incontornável,
mergulham à roda
do meu peito,
como se nascesse agora.
O silêncio
permanece no meu rosto,
a boca calada
seca,
palavras que não se
travestem de sons,
são imagens sem código,
pedaços visíveis
de um imaginário
invisível
que só eu sinto
e descortino no espelho,
nas rugas
de expressão.
A mesa semeada de
folhas brancas
convida-me,
a cadeira desarrumada
assimétrica,
quer-me...
dou-me, com o sentido
que as respostas
procuram,
mergulho num poema,
amarro minha mão
à pena gasta
que se entrega dócil,
- faltas-me tu,
suave ilusão
que guia as palavras
geradas,
vivas destas ruas
onde chego sempre
ao final
deste canto
incontornavel.

Dias cinzentos

A rotina alimenta-se de mim,
repetitiva roda
que os dias tecem.
toca o telefone, e não atendo,
bates à porta -
digo que não estou...
O que eu queria era o vento
a romper as janelas,
a chuva bruta e selvagem
pelas paredes dentro.
O cheiro do amor
na minha almofada,
o prazer do vinho
dessedentando gargantas,
as mãos cheias de tinta
de poemas esventrados.
Procuro meu espaço
fora das teias
deste tempo,
escuro como breu,
nada vejo,
nada sinto,
são lágrimas que não escorrem,
olhos cegos,
afundados,
perdidos,
apenas te percebo,
deslizando por dentro
da minha pele,
tomando-me
consumindo-me
neste vago torpôr
nesta impotência maldita,
dos dias cinzentos
sem sangue
sem ti,
repetitiva roda
que a rotina
escava.

Sexta-feira

Desaperto este nó
da semana,
trago de volta
o meu tempo.
Os pés descalços,
o peito aberto
à minha vontade,
os meus braços
arregaçam-se
dormem comigo
entregando-se em sonhos
que nenhum relógio
interrompe.
sou eu e o meu ritmo,
a porta entreaberta.
Adeus que me vou,
hei-de voltar.
Agora não,
acabou a sexta-feira.

22.6.06

Acho-te...

Acho-te em cada momento,
nas palavras que me rebentam na boca
como frutos maduros, roxos.
Acho-te no frio
que a maresia empresta,
nas vagas
selvagens, salgadas.
Acho-te em cada olhar,
procurando o mais além,
nas águas tímidas
vertidas de olhos perdidos.
Acho-te nas planícies
que não alcanço,
na imensidão dos pensamentos
guardados,
Acho-te
nas folhas brancas
que esperam meus dedos,
Acho-te no cheiro
da minha pele,
onde passaste, brincando,
Acho-te
no esplendor de um dia de Sol,
no mistério das noites enluaradas,
Acho-te no sentido
da vida,
Acho-te
em todos os pedaços
que recuso perder,
Acho-te
sem te encontar,
Acho-te
e sabes-me bem.

O terminar do dia

O dia repousa do meu lado,
o lado vazio
que não preenches,
que se enche de desejos
guardados na noite;
canto baixinho
melodias inventadas,
desafino
no tremor do meu peito,
frio;
encosto-me às palavras
com que cubro
a imensa vontade
de te ter.
O dia
já adormeceu,
respira sereno,
a noite
envia a sua sombra,
senta-se no meu leito
à minha beira,
conta-me histórias,
e depois quando
o livro se acaba
e me ajeita os lençóis
na despedida,
meus olhos pedem mais,
mas a luz vai-se fechando,
não vá o dia
acordar.

14.6.06

Para a Anaea

Frente a esta janela, quadrada,
muda,
soltam-se as tuas palavras
como toalha fina de renda
cobrindo a mesa,
que enches frugal,
preciosa.
São manjares finos,
que ofereces.
Sentado em frente,
nasce a vontade
de um faminto;
estendo meu copo,
aceito a jarra de vinho fimo
com que enches
as almas,
dessedentando
corações
envoltos na poeira
áspera do caminho.
Guardo palavras que restam
levanto a mesa,
resta uma cesta vazia
que sempre volta,
cheia e fresca
dos frutos
que o teu coração
sempre volta a escrever.

Na volta do dia

Passo a soleira da porta,
cansado,
largo meus despojos,
casa a dentro,
procurando um copo
em troca
de um vinho velho
onde vase este dia.
Acendo um cigarro
que se solta no ar
em mil desenhos imaginados,
ligo-me nas melodias
que passam,
cerro os olhos,
estou diante de mim,
os pensamentos voam
em redor,
livres, inatacáveis.