Já é tarde,
quando saio avenida a dentro.
Luzes ocres derramando silêncio
esgotam a porção de dia
que o sol deixou,
nas esquinas,
Não páro,
tenho a pressa dos vagabundos
sem perguntas
nem respostas,
anima-me a música
de um botequim,
chamando-me ao último copo
que teimo em não beber.
Os meus passos
aceleram a vontade de correr,
as minhas mãos voando,
imaginárias asas
que me pedem pressa,
meu corpo
um míssil em linha recta,
desvendando atalhos,
a minha vontade
um passo à frente,
não vás tu chamar-me,
e eu
não dar por ti.
As palavras, revelam pensamentos. Os pensamentos revelam a alma, e cada alma, o verdadeiro ser que faz deste mundo um constante devir...
7.6.06
5.6.06
Ladrão
Percorro cada rua
com a vontade de me perder.
Solto passos apressados
saboreando a brisa fria
que me envolve,
negando a força
que me empurra
de encontro a ti.
Dou por mim
na tua porta
como ladrão esquivo
penetrando sem bater,
contando que durmas
e não me queiras.
Já em teus braços
percorro-te
derramando meus beijos
no teu colo,
sussurando palavras interditas.
Os meus dedos caminham
por onde meus desejos
já estiveram,
e solto-me dentro de ti,
como onda que se quebra
no areal,
E quando o mar recua,
e o som da areia chora
dizendo adeus,
procuro novamente meus passos,
e volto à brisa fria
fechando a porta
lentamente,
sem vontade de esquecer
passos lentos, quebrados
que a luz já se acendeu
sem vontade de me achar.
com a vontade de me perder.
Solto passos apressados
saboreando a brisa fria
que me envolve,
negando a força
que me empurra
de encontro a ti.
Dou por mim
na tua porta
como ladrão esquivo
penetrando sem bater,
contando que durmas
e não me queiras.
Já em teus braços
percorro-te
derramando meus beijos
no teu colo,
sussurando palavras interditas.
Os meus dedos caminham
por onde meus desejos
já estiveram,
e solto-me dentro de ti,
como onda que se quebra
no areal,
E quando o mar recua,
e o som da areia chora
dizendo adeus,
procuro novamente meus passos,
e volto à brisa fria
fechando a porta
lentamente,
sem vontade de esquecer
passos lentos, quebrados
que a luz já se acendeu
sem vontade de me achar.
26.5.06
Estar contigo
Percorro-te com os dedos
desenhando na tua pele
sinais,
pedindo que os adivinhes,
os confesses.
Percebo-te nos sons
murmurados baixinho,
nos teus lábios vermelhos
mordidos,
insaciaveis.
Estendes teu corpo
como um barco que sai a enseada,
cruzas-te comigo
e somos a linha do horizonte,
onde o mar e o céu
se confundem,
e do teu lado,
olhamo-nos
e o nosso olhar
tem a força das memórias
de todas as nossas noites.
No fim,
mesmo antes que a lua desça
digo-te
o que sempre te digo,
foi bom
muito bom
estar assim,
contigo.
desenhando na tua pele
sinais,
pedindo que os adivinhes,
os confesses.
Percebo-te nos sons
murmurados baixinho,
nos teus lábios vermelhos
mordidos,
insaciaveis.
Estendes teu corpo
como um barco que sai a enseada,
cruzas-te comigo
e somos a linha do horizonte,
onde o mar e o céu
se confundem,
e do teu lado,
olhamo-nos
e o nosso olhar
tem a força das memórias
de todas as nossas noites.
No fim,
mesmo antes que a lua desça
digo-te
o que sempre te digo,
foi bom
muito bom
estar assim,
contigo.
19.5.06
Memórias
Abro o livro das memórias,
encontro revivido
de amores inocentes,
onde a fome e a sede
caladas,
faziam brotar de mim
a inexplicavel força
de quem ama.
Vasculho os cantos do passado,
sonhos antigos,
mulheres breves, passando,
tomadas nos beijos,
na ternura do colo
onde descansei meus olhos.
Passo as páginas de cada amor
relembro finais anunciados
em tardes de ausência,
lugares onde me perdi,
correndo cada palavra
de poemas nunca terminados,
procurando o poema
nunca entregue,
que nunca pude escrever.
Chega-me à memória
imagens do futuro
que o passado já mostrou:
E são desejos
que não passaram de desejos,
ses,
talvez,
porquês,
inundam-me na procura
que me toma,
e torno a ti,
nos dias que ainda não nasceram,
nas palavras guardadas,
nas sensações breves,
nos gestos contidos.
Encerro esse livro das memórias
dobrando o canto
de uma página alva
virgem,
onde voltarei talvez
e um dia escreverei
o poema
que dirá de ti.
encontro revivido
de amores inocentes,
onde a fome e a sede
caladas,
faziam brotar de mim
a inexplicavel força
de quem ama.
Vasculho os cantos do passado,
sonhos antigos,
mulheres breves, passando,
tomadas nos beijos,
na ternura do colo
onde descansei meus olhos.
Passo as páginas de cada amor
relembro finais anunciados
em tardes de ausência,
lugares onde me perdi,
correndo cada palavra
de poemas nunca terminados,
procurando o poema
nunca entregue,
que nunca pude escrever.
Chega-me à memória
imagens do futuro
que o passado já mostrou:
E são desejos
que não passaram de desejos,
ses,
talvez,
porquês,
inundam-me na procura
que me toma,
e torno a ti,
nos dias que ainda não nasceram,
nas palavras guardadas,
nas sensações breves,
nos gestos contidos.
Encerro esse livro das memórias
dobrando o canto
de uma página alva
virgem,
onde voltarei talvez
e um dia escreverei
o poema
que dirá de ti.
18.5.06
Distância
Percorro o caminho
que a vida me traça,
abro os braços
calculo a distância
que o mundo me impõe
e encontro-te
na interminavel noite
onde a ausência
me abraça
e uma porta entreaberta
pergunta -
Quando vens?
Desejo-te
Na distância das nossas mãos
separadas,
nas vontades caladas
murmurando encontros
cegos
às vistas desarmadas,
longe.
Mato a distância
sentindo teu peito
batendo dentro de mim,
no desejo
de nos termos,
sussurrando
palavras nuas, breves
que não bastam - distantes;
histórias breves
sem fim
de uma paixão
sem tempo,
que um dia
acabaremos por contar.
que a vida me traça,
abro os braços
calculo a distância
que o mundo me impõe
e encontro-te
na interminavel noite
onde a ausência
me abraça
e uma porta entreaberta
pergunta -
Quando vens?
Desejo-te
Na distância das nossas mãos
separadas,
nas vontades caladas
murmurando encontros
cegos
às vistas desarmadas,
longe.
Mato a distância
sentindo teu peito
batendo dentro de mim,
no desejo
de nos termos,
sussurrando
palavras nuas, breves
que não bastam - distantes;
histórias breves
sem fim
de uma paixão
sem tempo,
que um dia
acabaremos por contar.
12.5.06
Clandestino
Guardo desejos
mascarados de segredos,
- apenas tu sabes
que os gestos
e o olhar
são testemunhas
desta fome incontrolada
de te querer.
As palavras correm
livres,
levam-me neste sonho
pastor das minhas mãos
prontas a desgarrarem-se
em ti.
És livro proíbido
escondido
num recanto,
onde cada folha
tem memórias e sabores
que não se podem recitar.
Restam histórias,
pedaços dos momentos
que nascem clandestinos,
breves, intensos.
Depois olhamo-nos,
despimo-nos,
fazendo o corpo tremer,
ao ritmo
de quem se segura
nos dias de todas as horas,
onde sabemos
nunca aportar.
mascarados de segredos,
- apenas tu sabes
que os gestos
e o olhar
são testemunhas
desta fome incontrolada
de te querer.
As palavras correm
livres,
levam-me neste sonho
pastor das minhas mãos
prontas a desgarrarem-se
em ti.
És livro proíbido
escondido
num recanto,
onde cada folha
tem memórias e sabores
que não se podem recitar.
Restam histórias,
pedaços dos momentos
que nascem clandestinos,
breves, intensos.
Depois olhamo-nos,
despimo-nos,
fazendo o corpo tremer,
ao ritmo
de quem se segura
nos dias de todas as horas,
onde sabemos
nunca aportar.
Depois do Amor
Embalados no suave torpor
da fadiga,
encontro-te na minha pele,
e teus olhos
indefesos,
agarram os meus
num refrão incessante
que não quer terminar.
Colada ao meu corpo,
estremecendo,
construímos as carícias
que a pressa do desejo
esquecera.
Caem pelo teu rosto
as lágrimas doces,
felizes,
que eu bebo
nos beijos com que afago
teus olhos,
perdidos
sabendo a bonança.
Fica uma música
que vem de dentro
de ti
onde me encosto
e embalo,
resgatando teu regaço
doce
onde me deixo ficar.
da fadiga,
encontro-te na minha pele,
e teus olhos
indefesos,
agarram os meus
num refrão incessante
que não quer terminar.
Colada ao meu corpo,
estremecendo,
construímos as carícias
que a pressa do desejo
esquecera.
Caem pelo teu rosto
as lágrimas doces,
felizes,
que eu bebo
nos beijos com que afago
teus olhos,
perdidos
sabendo a bonança.
Fica uma música
que vem de dentro
de ti
onde me encosto
e embalo,
resgatando teu regaço
doce
onde me deixo ficar.
9.5.06
Guerras
A guerra assoma e foge,
o sol queima impiedoso
cada corpo,
os rostos - estátuas de sal
onde apenas as lágrimas
são mais secas
que a água ausente.
os olhos fundos, resignados
inertes, as mãos caídas
vazias.
uma capa negra
dada pela morte
serve de agasalho
quando chega o frio agudo
que corta.
E a guerra assoma e foge.
Deixa aos colos das mães
esqueletos de amor,
filhos frios
de carícias nunca havidas,
E a guerra assoma e foge.
Com ela
barrigas amplas, contentes,
malas cheias de soldados cadaveres,
gravatas e óculos emproados,
sereias de costumes,
recolhem-se ao seu regaço
e gozam em delírios
contidos e secretos.
E a guerra assoma e foge,
recarregando a baioneta
que trespassa as nossas vidas.
A guerra assoma
nós morremos.
o sol queima impiedoso
cada corpo,
os rostos - estátuas de sal
onde apenas as lágrimas
são mais secas
que a água ausente.
os olhos fundos, resignados
inertes, as mãos caídas
vazias.
uma capa negra
dada pela morte
serve de agasalho
quando chega o frio agudo
que corta.
E a guerra assoma e foge.
Deixa aos colos das mães
esqueletos de amor,
filhos frios
de carícias nunca havidas,
E a guerra assoma e foge.
Com ela
barrigas amplas, contentes,
malas cheias de soldados cadaveres,
gravatas e óculos emproados,
sereias de costumes,
recolhem-se ao seu regaço
e gozam em delírios
contidos e secretos.
E a guerra assoma e foge,
recarregando a baioneta
que trespassa as nossas vidas.
A guerra assoma
nós morremos.
Na margem de um rio
Pelos sons do rádio,
correm melodias doces
à nossa frente.
O rio corre,
as luzes paradas
no outro lado da margem
iluminam-nos,
e sabe bem o silêncio
que as nossas mãos fazem
entrelaçadas,
falando,
como um jogo de adivinhar,
onde sempre acertamos
quando as nossas bocas
se abrem
e te recebo
e tu me recebes,
trocando uma paixão
ainda envergonhada,
ainda construída
à custa de desejos incompletos.
As minhas mãos
viajam pelo teu corpo,
com a velocidade
de te querer.
Descubro-te,
e no mesmo instante
és tu que me descobres
roubando ao meu corpo
tudo o que sempre quiseste.
Um cigarro ao final
devolve-nos à musica
e ao rio
que não pára de correr.
as luzes
longe, trazem a outra margem,
reflectem
nossos olhos falando
num último abraço,
guardando
o que resta de nós
correm melodias doces
à nossa frente.
O rio corre,
as luzes paradas
no outro lado da margem
iluminam-nos,
e sabe bem o silêncio
que as nossas mãos fazem
entrelaçadas,
falando,
como um jogo de adivinhar,
onde sempre acertamos
quando as nossas bocas
se abrem
e te recebo
e tu me recebes,
trocando uma paixão
ainda envergonhada,
ainda construída
à custa de desejos incompletos.
As minhas mãos
viajam pelo teu corpo,
com a velocidade
de te querer.
Descubro-te,
e no mesmo instante
és tu que me descobres
roubando ao meu corpo
tudo o que sempre quiseste.
Um cigarro ao final
devolve-nos à musica
e ao rio
que não pára de correr.
as luzes
longe, trazem a outra margem,
reflectem
nossos olhos falando
num último abraço,
guardando
o que resta de nós
Encontro com a morte
Havia naquele dia, um murmúrio estranho, que inundava as ruas, quase como a cidade tivesse ficado despida, nua. Não havia troca de olhares, cada um passava célere, envergonhado, enterrando-se pelo pescoço, curvando-se como se o vento vergasse as costas, e o mundo pesasse todo, em cada um.
Eram mil imagens a correr por segundo, mudas, em que cada um fabricava o seu próprio argumento, e cada gesto tinha de ser soletrado e imaginado.
Nas praças, os velhos de olhar perdido, sorriam. Miravam como sempre miram quem passa, e sem nada dizer,deitavam as cartas uns aos outros, no mesmo murmúrio, que ecoava em todos. Havia cheiro a memórias, e os passos descolavam do chão, sem deixar rasto nem som.
Subitamente, um vulto abraçou toda a praça, olhos escondidos, sem formas que pudessem revelar qualquer sinal, e num instante, todos recuaram para a deixar passar. Um braço, fino, cortante, tal qual um sabre estendido, ergueu-se e apontou na minha direção. Qual cachorro dócil e obediente, corri para ela. E à medida que me cheguei, num gesto voluptuoso, enorme, foram caíndo as suas vestes, seus olhos iluminando-se, os seus braços enormes preparando-se para um abraço eterno. A minha hora chegara.
E quando por fim me uni a ela, todos os sons e imagens, dispararam como uma máquina que volta a fazer o que sempre fez.
Os velhos, nada disseram, mas as cartas continuaram a ser deitadas, os sorrisos voltaram aos rostos, e cada passo, e cada gesto, e cada corpo, ecoou na praça, sabendo que lhe era permitido continuar.
Eu de mão dada com ela parti. Boa morte que me levou e deixou o Mundo à espera do seu dia.
Eram mil imagens a correr por segundo, mudas, em que cada um fabricava o seu próprio argumento, e cada gesto tinha de ser soletrado e imaginado.
Nas praças, os velhos de olhar perdido, sorriam. Miravam como sempre miram quem passa, e sem nada dizer,deitavam as cartas uns aos outros, no mesmo murmúrio, que ecoava em todos. Havia cheiro a memórias, e os passos descolavam do chão, sem deixar rasto nem som.
Subitamente, um vulto abraçou toda a praça, olhos escondidos, sem formas que pudessem revelar qualquer sinal, e num instante, todos recuaram para a deixar passar. Um braço, fino, cortante, tal qual um sabre estendido, ergueu-se e apontou na minha direção. Qual cachorro dócil e obediente, corri para ela. E à medida que me cheguei, num gesto voluptuoso, enorme, foram caíndo as suas vestes, seus olhos iluminando-se, os seus braços enormes preparando-se para um abraço eterno. A minha hora chegara.
E quando por fim me uni a ela, todos os sons e imagens, dispararam como uma máquina que volta a fazer o que sempre fez.
Os velhos, nada disseram, mas as cartas continuaram a ser deitadas, os sorrisos voltaram aos rostos, e cada passo, e cada gesto, e cada corpo, ecoou na praça, sabendo que lhe era permitido continuar.
Eu de mão dada com ela parti. Boa morte que me levou e deixou o Mundo à espera do seu dia.
4.5.06
Memória de uma noite
Nem a madrugada se despedira,
quando um raio de sol
espreitou o meu quarto
e descobriu,
tuas coxas encobertas
pelo cetim
que a noite trouxe.
Tinhas um sorriso
guardado no rosto
desenhado pela memória breve
onde descansavas.
Quis-te
com as mãos suspensas
do desejo
de te voltar a ter,
e meus olhos passaram
o leito a pente fino,
procurando as histórias
de uma noite
como nenhuma antes houvera.
Toquei-te,
e o desejo acendeu-se,
teus olhos semi abertos
arderam na procura
e senti teus seios
colados ao meu peito,
teus cabelos
subindo pelos meus braços,
inventando amor
em palavras roucas,
sussurradas em cada som,
em cada arfejo.
Rimos e rolámos
amor a fora.
Chorámos -
o choro dos momentos felizes
que a vida às vezes oferece.
Depois foram
cavalgadas audazes à força de nos
querermos,
e foram palavras obscenas
que cheiravam a poemas
e corpos, os nossos dois,
entroncados num só.
Já tarde,
o sol chamando,
entregámo-nos num último beijo,
até nos querermos mais.
quando um raio de sol
espreitou o meu quarto
e descobriu,
tuas coxas encobertas
pelo cetim
que a noite trouxe.
Tinhas um sorriso
guardado no rosto
desenhado pela memória breve
onde descansavas.
Quis-te
com as mãos suspensas
do desejo
de te voltar a ter,
e meus olhos passaram
o leito a pente fino,
procurando as histórias
de uma noite
como nenhuma antes houvera.
Toquei-te,
e o desejo acendeu-se,
teus olhos semi abertos
arderam na procura
e senti teus seios
colados ao meu peito,
teus cabelos
subindo pelos meus braços,
inventando amor
em palavras roucas,
sussurradas em cada som,
em cada arfejo.
Rimos e rolámos
amor a fora.
Chorámos -
o choro dos momentos felizes
que a vida às vezes oferece.
Depois foram
cavalgadas audazes à força de nos
querermos,
e foram palavras obscenas
que cheiravam a poemas
e corpos, os nossos dois,
entroncados num só.
Já tarde,
o sol chamando,
entregámo-nos num último beijo,
até nos querermos mais.
2.5.06
Retrato
Os pensamentos são tão meus
são tão de dentro de mim,
pegados à pele, exalam,
toda a verdade que sou;
Moldo, torço
esventro,
esculpo, invento cores - pinto
O retrato é sempre
crú e simples.
mesmo defronte do espelho
em que me afronto.
Rio, choro,
mudo
aterrado,
Sou eu ali defronte,
Sou eu lá e cá.
Não finjo, nem faço pose..
Apenas sou
O que penso...
são tão de dentro de mim,
pegados à pele, exalam,
toda a verdade que sou;
Moldo, torço
esventro,
esculpo, invento cores - pinto
O retrato é sempre
crú e simples.
mesmo defronte do espelho
em que me afronto.
Rio, choro,
mudo
aterrado,
Sou eu ali defronte,
Sou eu lá e cá.
Não finjo, nem faço pose..
Apenas sou
O que penso...
Um momento

foto de LuisRossa
Fazia tempo que não aparecias. Passava tantas vezes por ali. Às vezes com a vontade surda, as pernas querendo estacar, os olhos passando cada rosto, procurando por dentro dos olhos, a mesma vontade que trazia. Nem vivalma. Todos seguiam o seu caminho, como se dissessem, na sua impavidez - já tenho, não quero.
Depois, partia por onde o corpo quisesse, sem vontade de parar, sem vontade de nada, deixando o tempo correr, ao ritmo de cada cigarro consumido, de cada copo esvaziado. Não te via, em nada, nem nas letras, nem nas músicas. Queria desistir, mas era mais forte que eu a vontade do vento, em fazer da minha vontade - veleiro, onde pouco resta, senão segurar o leme, e descer velas que soltam o desejo.
Julguei estar no porto mais seguro, a que alguma vez tinha atracado. Já estivara a carga, as velas descidas, a âncora funda e calcada, na vergonha de um barco parado, as cordas bem seguras ao cais da minha conformação.
Passaste, com os olhos frescos da manhã, e na tua pele, vinha o canto do desejo, as tuas mãos carentes de viagens, que querias dar, e chamaste-me, como uma sereia chama um marinheiro, que mesmo não querendo, ruma célere à ilha da vontade.
Na tua boca, trazias o beijo que eu queria selar, no teu corpo, a esteira onde me queria deitar, nos teus olhos, o desejo de uma noite para além da madrugada, onde ficassemos nús e mudos, velando pelo fogo trepitando.
Não pediste cetim, nem velas perfumadas, quiseste apenas a rudeza de um desejo imaginado, e eu, contigo, quis apenas guardar-te, como se guarda um momento na memória, sem passado nem futuro. Deixamos as palavras soltas pelos cantos, como as tuas roupas, caídas à medida da ternura que te entreguei, e fomos suor e àgua, e fomos amantes eternos de um momento único, onde rolamos no leito, incendiando os lábios, apagando a sede nos teus seios fartos, magnânimes, nas tuas coxas serenas, macias, no teu cabelo cheirando ao trigo por mondar.
Deixei-te, ainda dormias. Vi-te estendendo as mãos, procurando o que já terminara. Desejei-te uma vez mais, mas segui, como quem segue o seu destino, ao leme de um veleiro, apenas desejando vento, para aportar a outro cais.
Fica, meu bom desejo, fica. Procura-me nos teus sonhos, e fica, fica... O vento um dia pode mudar, quem sabe, e ao longe, na entrada da baía, estarei sempre eu, querendo que tu esperes, querendo que não queiras, mais que um momento, apenas para guardar.
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