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17.6.13

Em ti















No mistério de te sentir,
no teu sorriso pleno,
no teu rosto que me penetra as noites
brilha
daqui deste pequeno porto onde fico
ancorado
a espera por ti,
deste meu dia, a vontade
que atravessa os mares
enchendo redes das tuas palavras
guardando-as uma a uma
como pérolas
arrancadas dum mar profundo
desses teus olhos
onde me aconchego
meu tesouro
meu tempo
meu último dia

navegando

10.6.13

As mulheres

 




















as mulheres são bonitas
tanto tempo
em dezembros de algodão
nos janeiros das tardes cinza
nos regaços generosos por onde passo
nas marés deitadas a vento norte
nos olhos azuis que brilham
na aurora e nas madrugadas
e nas mãos atentas que embalam
e nos deixam meninos,
as mulheres são sempre belas
quando se destapam
e se abrem ao nosso desejo
sem mais desejar que ser desejadas,
quando são rios inconquistados
e orvalhos ousados
das manhãs que surpreendem.
as mulheres são sempre belas
quando os junhos chegam semeados de papoilas
e no agosto que nos deixa as camas
em lençóis estendidos e revoltos.
as mulheres são sempre belas
quando sorriem ternas
e choram no silêncio dos perdões
reprimidos
as mulheres são sempre belas.


28.5.13

Sal



Neste dia em que a chuva me beija
há um manto cinza que me tapa,
a praia lisa e o frio aconchegante
distraem-me
do frio
que greta os meus lábios
brancos
sabendo ao sal.
Os olhos encharcados
deste vento que ensurdece
leva espantados
todos os pensamentos
do teu ninho
onde já não sei poisar.
o mar passa por mim depressa
repete-me num trautear louco
as ondas que chegam e morrem
como a esperança,
que chegues
e me abraces e beijes.
Cheiro e sinto que és tu
no caminho
onde me deito a andar
apenas querendo
que o fim regresse mais cedo
e me encontre na memória
como se nunca me deixasses
a tempo de te explicar
que o amor passou de perto


24.5.13

Madrugadas













Neste dia em que a chuva me beija
há um manto cinza que me tapa;
a praia lisa e o frio aconchegante
distraem-me
do frio
que greta os meus lábios
brancos,
sabendo ao sal.
os olhos encharcados
deste vento que ensurdece
leva espantados
todos os pensamentos
do teu ninho
onde já não sei poisar.
o mar passa por mim depressa
repete-me num trautear louco
as ondas que chegam e morrem
na areia
em esperança
que chegues
e me abraces e beijes.
cheiro e sinto que és tu
no caminho
onde me deito a andar,
apenas esperando
que o fim regresse mais cedo
e me encontre na memória
como se nunca me deixasses;
e no nascer desconfortado do sol
na presença dos melros saltimbancos
sou um madeiro profundo e seco
onde a alma descansa
repousada, aberta
que o vento virou de frente.

15.5.13

Senhora Poesia



















A poesia às vezes
começa assim,
as palavras seguindo-se umas
às outras
como carreiras de formigas
sem sabermos onde vão
a não ser que as sigamos…
e a palavra soberana é rainha
que nunca está à vista
como as palavras mais simples
escondidas
irreveladas
solteiras.
a poesia solta-se
como máscara
de todos os silêncios que me apetecem
desflorar,
como pegada leve, quase
despercebida,
em cada canteiro semeado.
a poesia vem e despede-se
e eu digo-lhe um adeus
vago
porque sei que há-de voltar.

3.5.13

Razões


Nem sei bem a razão
porque me tremem os lábios
ao murmurar teu nome,
nem conheço a razão como
aceito este pecado
e já não sei fugir de mim.
Os nossos olhos olham-se
quando as máscaras secam ao sol
rasas da água que as inundou
navegando neste rio
farto das pedras que me acertam.
Sei que te pego as mãos
cheias desse toque quente
onde o teu nome é uma flor
e um céu azul de sábado,
e nesta seara loura
tomo tuas coxas
e deslumbro-me nas palavras
com que desenho
o voo dos pássaros
e a maré fresca das auroras
onde repousas
apertada nos meus braços
e nos confortamos
num beijo
que os corações falam sem silêncio
e sabem o que podem dizer

29.4.13

amanhã







Amanhã os teus olhos
estarão perto dos meus
tão perto que escutarei o teu fechar de olhos
doce
amanhã, repartirei contigo as cerejas
que se confundem com teus lábios
e talvez possa beijar-te
quando a tarde cair.

24.4.13

O meu cão


















apresso-me a dizer
quão falso é,
pois afinal sou eu que já sou teu,
entendendo esses olhos
inexplicáveis
tentando decifrar o que não dizes
como se alguma vez pedisses
que te entenda
para além da comida
para além da água
e da rua
e das festas,
afinal és todo pêlo
ossos, músculos
és tudo o que um ser
que ladra e gane deve ser
simples
inteiro
selvagem
e até sei que ris (porque sorris?)
quando te chamam doméstico.

Paixões













As paixões surgem
tal como movimentos gigantescos
que tudo absorvem e gelam
à volta.
Sou só o que tu és,
contornos reflectidos
nas janelas onde paro
estarrecido
hipnotizado, deixo-me ficar
como o rapaz do cinema paraíso, e
quando os desejos,
são apenas um simples sim,
rotundo, enorme.
as paixões divertem-se
zombam como xizatos
afiados -
- cortam
entre ti e o resto do mundo
todo
ainda por inaugurar.
Uma paixão
não se toma por assinatura
uma mulher toma-se inteira,
imagens de uma volta
de dança
de passos completos
coreografados
aprendidos
simples movimento aprendido
que depois copio
nos saltos em cima
das chuvas da tarde
pequenas poças
onde a paixão se reflete
única e verdadeira
sublime
como a água
evaporando,
sou eu agora
enredado em ti.

17.4.13

Preciso




















preciso das tuas mãos
talvez do teu colo,
deixar que me embales e descanse
a cabeça,
como um cão aninhado, pedindo festas.

Preciso que as batalhas permaneçam quietas
dando tempo a que este peito cicatrize,

Preciso dos abraços
que me apertem

Preciso de voltar a qualquer lado
ainda antes de ser criança

Preciso de mim
e dos meus olhos abertos
no meio dos braços e das pernas
dos que acolhem e me deixam ficar
e dos que sabem
como o tempo rompe e dissolve.

Preciso de ti
e das árvores que me tapam o sol
quando o Verão me maltrata,
e de um copo de água generoso
ainda que a sede espere.

Preciso do orvalho nas manhãs frias
e do teu casaco quente partilhado.

Preciso dos teus poemas temerários
Irritantes, nus
que dizes com voz calma e serena.

Preciso das músicas mais tristes
que me tapam a boca
e me queimam o peito.

Preciso de paz
quando as ruas não acabam
e as crianças olham desconfiadas
a luz mortiça dos meus olhos
que ensombra as cores do teu desenho
fosco.

Preciso, sem saber bem do que precisar,
porque cada poema
me deixa mais pobre
arrancado assim à força
do que sou.

14.4.13

Escolhas























As coisas vêm todas dos
mesmos lugares,
e da arte das escolhas
é que decido se a chuva
me molha,
ou se os teus lábios sabem
bem.
O amor e o ódio
cabem em mim ao mesmo tempo
com a mesma intensidade
como um rio de inverno
selvagem, mortal
ou um fio de água terno e cálido
onde os catraios se banham
no fulgor de um verão estival.
Tudo está em mim
nas sombras
nos olhares plenos
como enfrento a luz
e provoco o negrume das noites sem mãe,
Digo ao mundo,
o que quero dizer que sou.
Feito do medo
e da coragem dos dias
com que sorrio ao que não entendo,
como amar-te,
é um simples gesto
onde a vontade
pouco diz.

23.3.13

Chove em Lisboa
















            
foto de www.pensarlisboa.com             


Chove em Lisboa,
adoro quando chove,
e esta cidade se ilumina,
Lisboa é uma mulher linda,
de cabelos escorridos,
que corre livre                                                                                              
pelas ruas
cheirando ao silêncio que a chuva traz.
Os cheiros molhados, despertam
e os cães continuam o seu caminho
imperturbáveis,
só os gatos se escondem
por trás dos vidros embaciados.
Chove                                                                      
e o tejo diz coisas às gaivotas
que eu não percebo
os barcos sorriem da pacatez
dos marinheiros
deixados em terra.
Chove em Lisboa
distinta chuva
de outro qualquer lugar,
tem o riso adolescente
dos beijos sem vergonha
no meio da rua
e as poças de água
e as calçadas polidas
traiçoeiras.
Chove em todos os lados,
nos cabazes da fruta
e as goteiras das casas
inventam melodias
cantam do arco-íris
que afaga a cidade
e lhes fala do sol
que está à porta, chegando sem pressa
que a cuva cai, doce
amante.

7.12.12

Ontem




ontem foste tu
nas grandes e nas pequenas voltas
desse chão onde te amo,
soltaste teu tempo
e deixaste o meu, parado
apenas para ser teu.
ontem
o teu perfume acordou
as minhas histórias sem heróis
despertou
as fábulas dos que voam
para chegar a um ponto de partida
e os teus olhos disseram
todas as palavras que não profiro
para que o medo não oiça.
ontem
mesmo antes de hoje
amei-te
no toque leve, violento
de um abraço,
e do calor da tua nuca
encostada a mim.
ontem as canções tocaram cá dentro
apenas cantadas para ti
na tua varanda
onde ainda não chego
mesmo antes de hoje
voltar.

4.12.12

Livre


















Quando me liberto, canto;
quando me liberto, danço;
livre, sou um corpo em movimento
livre, sou maestro de todos os meus átomos
e células, uma a uma.
sou sol de raízes profundas
percorro-me livre
e acho-me no meio
desta terra que cheira a chuva
desta estrada grande
donde não quero saber o fim
livre, tenho as asas brancas
das garças
sorrindo
em cada pedaço do caminho.

26.11.12

Sem mais














Não gosto das coisas previsíveis
constantes
dá-me para trocar um lençol morno
e uma perna certa,
por um olhar fortuito
doce
e duas fatias de pão com manteiga.
aconchego-te a roupa
apenas para que durmas
e acordes despida
destapada
comigo em chamas.
adoro os prenúncios de que vens chegando
apenas para inventar uma banda
de músicos verdes
que te cantam no pescoço
uma aurora de chuva
onde o sol vem nos teus olhos.

Apetece-te























Não me apetece ler os poemas,
apetece-me que te apeteça
que os leia
que queiras que os escreva e
que diga
os meus e os do Pina
e os do Eugénio
e depois que te apeteçam
os meus braços
e que peças os meus beijos
lambuzados das palavras que te disse,
e as folhas soltas
fiquem esquecidos nesse teu chão
onde te apetece
tomar-me
como se diz um poema
completo e nu
teu
apetecido.

16.11.12

Sem razão















Sem nenhuma razão,
por nenhuma razão,
nem caminho.
sou apenas pensamentos,
e o teu calor
queima,
as dores esquecidas
análgicas,
e os meus olhos -
- dois milhafres negros
ao longe,
sem nenhuma razão
voo sobre as folhas
e tinjo-as de letras
que apenas dizem de ti
o que sei
e não sei de ti,
como apenas sinto e descrevo
como te acomodas no meu poema,
inexplicavelmente
como a razão morresse
no brilho dos meus lábios
que me sabem a ti. 

12.11.12

Na sala de espera de um consultório

















Não se vêem olhos nem faces reluzentes,
antes o bafo, sentados, como convém, doentes.
o verbo solta-se, cheira, inunda
espera-se na soleira por uma voz profunda.

Há traços imprecisos nas faces lábeis,
os lábios quase colados, finos, roxos
murmuram das vidas, em meneios hábeis
das vidas que adivinham, dos decrépitos e dos coxos.

Solilóquios aos cantos da sala, disputados, eremitas
reparam-se nos dedos, nas mãos inquietas que mexem
ininterruptas
e as nucas, sempre as nucas que arranham as paredes
como a espera das prostitutas.
e os guardanapos que tapam dignamente as marmitas.

nem se imaginam, se mentem,
secam-se os desgostos nos folhados
e nos depósitos de orelhas amigas, vazias
queixas, histórias, funerais anunciados

e os lábios são tambores rufando, soprando
o desgosto de por ali se entreterem, a sopa
ficou por casa, não está feita, e a roupa,
e os telefones, são músicas de aleluia chegando

em conversas de códigos, que sim, está para durar
já todos foram chamados,
falto eu,
sou eu agora, adeusinho. Já me estão a chamar.

25.10.12

Fosse eu














Se eu pudesse escrever poemas
do tamanho do quanto eu te amo,
se eu voasse pelas asas do pássaro grande
e as lágrimas
que o vento provoca
pudessem levar a água às terras secas,
se eu pudesse mostrar como o peito rebenta
no milagre da tua presença,
e todos os que amam
se levantassem em guerra
pelo amor que se perde pelas frestas
dos muros levantados.
se eu soubesse cantar as músicas que me quebram
e diante de ti,
a minha expressão te seduzisse
e as letras que formam as palavras
fossem os soldados
que falam nas praças grandes,
 e os lábios da cor dos cravos
apenas beijassem
e o valor de um sorriso
tivesse dentro a medicina das curas
milagrosas.
E se o meu piano
fosse este teclado negro e branco
e cada frase em tom menor
tivesse à lapela um som maior.
se eu fosse todas as rodas de dança
e tu
um corpete onde adivinho a noite.
se tudo fosse…,
deixaria os poemas dormir
e nos teus olhos recitaria eternamente
este meu querer.

15.10.12

Cantos das folhas






Escrevo nos cantos das folhas
os versos que não sei dizer,
embaraço cada letra em novelos
e jogo no ar
as pingas de chuva
que nunca me dessedentam.




Não sei se algum dia
o sol me entenderá
ou se os pássaros deixarão de fugir
quando os contemplo
apenas parado a ouvir.

Sou corpo
de mãos secas,
das palmas das mãos gretadas
de tanto mar
que passa nestes tempos
do silêncio
e das areias que se metem
por todos os poros.

Escrevo num propósito
exorcizo a magia
de te ter por aqui.