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12.6.08

Intensa solidão


foto de: Jorge Casais
Na intensa solidão que se espraia nestas ruas infinitas, descanso as mãos nas folhas brancas e entrego-me nas letras negras, elegantes, absolutas. Lembro-me de ti, das sensações tomadas por verdade, em cada cheiro, em cada memória, nas ternas imagens que persigo dos teus gestos quentes, do nosso passado projectado em dias vivos onde esperávamos a noite para estendermos nossos corpos e nos enlaçarmos, como esculturas perfeitas de um molde único.
Sou o poeta dos pequenos momentos, dando-lhes a cor das grandezas, das mulheres que são princesas quando ousam deixar-se fitar, e dizem com os olhos, que estão guardadas para quem as ame e as queira como mulheres.
Na imensidão dos segundos em que sossego e me repito de desejos, olho as janelas que me devolvem o negro da noite, e confio-lhes a acalmia estranha de quem convive com os dias que já chegaram e me deixaram mais velho. Não pertenço a nenhuma geração, nem sou da história, apenas invento a minha própria, inundada do que tenho e do que não me pertenço. As histórias passam atrás de nós, e pela frente, como sombras dançando com a luz, indo e regressando, como a dor e a alegria, o calor e o frio, tu e tu e mais tu.
Nem preciso que me abraces, apenas que digas que tens vontade de o fazer. Rodas diante de mim, a tua saia de roda baila, escondendo e revelando as tuas coxas esculpidas, apertando os teus seios nessa tua blusa que faz imaginar histórias ainda mais belas. Ás vezes apenas no prazer de contemplar. Ás vezes num poema que vai mais longe que as mãos e os olhos semi cerrados.
Ao fim, despeço-me das letras, sabendo que vou voltar a elas e enche-las de tudo o que passa à frente dos meus pensamentos, dos meus dias possuídos neste corpo que me traz por aqui, e donde saio para poder voar e ver-te, em todos os lados onde tu ficas, imensamente, esperando por mim…

21.5.08

No calor dos corpos colados

No calor dos corpos colados, no fim de nos termos, a tua pele carmesim, encosta-se a mim, o teu cheiro chega-se, embrenha-se na mistura dos dois. Sinto o doce toque da tua mão no meu corpo, e devolvo teu toque, tocando-te, sentindo teus poros arrepiados. No teu olhar, adivinho os teus segredos que me contas, disponível, dada. Na sala toca jazz, baixinho, adormecendo-nos. O teu corpo continua escaldante, meu. Olho-te irrepetivelmente e na doçura que cresce por entre nossos lábios, deixo os meus desejos, que cumpres, como ordens de um rei a quem te entregas vassala. Os teu riso contagia-me, somos felizes assim, rindo do que temos e do que somos, amando-nos e dando ao torpor dos nossos corpos a melodia singela de um amor que se prolonga em surdina. Depois adormeces, cansada, exausta, feliz… extasio-me na contemplação de ti, dormindo. E eu então adormeço, guardando-te em meu corpo, para depois acordar em teus lábios, que me chamam.

27.3.08

Crónica da Chegada


foto de Judith Tomaz

O tempo cinzento, anunciava a chuva que certamente cairia com o avançar da tarde. Na minha frente, bandos de pardais esqueciam-me de ti, generosos no seu esvoaçar, como loucos, tocando o céu, e em pique procurando o chão e o sustento. As árvores frondosas, bailavam majestosas, elegantes, falando das coisas sábias que as memórias cuidam e guardam. Um cigarro adormecido nos dedos, repetido, esfumava-se na espera, e percebia no fumo, o sentido único dos meus olhos vermelhos, cansados de te esperar. Faltavas-me…
Não sei se foi o teu perfume, se os teus passos que chegaram primeiro e acordaram o meu sorriso, e me fizeram soerguer com a vontade de não lembrar o que já não dói, nem faz sentido. Tu estavas…
Olhei-te com o desvelo de um amante, sedento de ti, faminto do teu corpo, e tu percebeste que chegaras…
E o teu corpo e o meu, voaram. E nos momentos todos que colhemos, fomos um e outro num só, como se o desejo guardado irrompesse, como um rio trespassando os diques mais altos, e na torrente apenas quiséssemos que a foz fosse o destino, onde chegávamos sem destino, que não o que traçámos. E ao chegar, ficámos…

28.2.08

Chegaste



O livro caiu-me das mãos, ainda agora o devorava entusiasmado, e o disco que tocava, emudeceu rendido. Nas ruas já não rebentam as vozes dos inquietos e dos injustiçados, e o autocarro urgente das tantas e tais já passou apressado sem que eu o queira. A chuva caiu e o Sol voltou, como se nunca nada acontecesse, e os tachos ficaram ao lume aquecendo um jantar adiado. Não, não reguei as flores, nem vesti nenhuma das roupas que me prendiam na escolha decisiva. nem me sentei para ver na TV o show que ficou a meio, nem a resposta à pergunta mais difícil, que um dia já não é importante. A memória perdeu-se, e o frio que ainda agora gelava os pés, e o suor que caía deste Estio esgotante e intenso, não são mais que apontamentos de outros dias. As janelas abertas de par em par, não batem nem se fecham, os sinais são de outras cores, nem vermelhos nem verdes, o amarelo não pisca, como meus olhos doridos, chorando, são agora faróis atentos, e os correios e as cartas já não são mais que objectos que se guardam e não se atendem, nem que o telefone toque colérico do desprezo que lhe entrego. O mar abraça-se à areia manso e calmo como se parasse para escutar. As histórias arrumaram-se em fila de espera, nem as palavras se importaram de ficar presas nos lábios, afinal tudo parou, apenas porque chegaste e te sentaste, bem perto de mim.

10.12.07

Magnífico alpendre


No magnífico alpendre, onde as nuvens cobrem os vales, como mantas doces e quentes, tapando o correr dos dias, como se estivesse acima de tudo o que me quisesse, surpreendo-me na perturbação de me entrares por mim e me tomares refém.
O Sol põe-se à conversa, aquece os meus ossos, rígidos, doridos, imóveis; dou pelo meu corpo como um invólucro guardador dos tesouros mais preciosos, raros.
Espero por ti, porque me quero tornar no sorriso que te espera, e em cada abraço revelar o significado de te encontrar, perceber nos teus lábios as tuas vontades, e nos teus olhos saber como a vida se desdobra em momentos iguais e em pequenas centelhas de esperança, de novidades, de inquietação.
A vida perpetua-se em olhares que avançam até às linhas do horizonte, e as minhas mãos ainda que sabendo, nunca agarrarão o futuro, senão quando se achar presente.
Quando te espero, percorro teus sinais, na pequena diferença que te torna desigual e me faz escolher-te, irrepetida no desenho do teu rosto, na capa do livro que sempre te cobre as mãos, nesse doce tom onde as palavras com que dizes as mesmas coisas, soam a histórias frescas e inventadas.Quando te espero, neste magnifico alpendre, sei que as montanhas se movem e o teu caminho é um traço de giz que serpenteia e aclara as planícies onde os vivos se movem, onde me espero na rotina quotidiana de te perceber e te querer. Daqui deste magnífico alpendre onde me hei-de deixar estar, esperando que voltes e permaneças olhando o dia sempre novo.

30.10.07

Esse teu vestido


foto de Carla Maio

Gosto de te ver nesse vestido, simples, negro, as alças que te afagam teus ombros finos, onde repousam tantos dos meus beijos. Em cada olhar, percebo a repetição dos olhares, como um vício que me conforta e do qual não me desprendo. Gosto de te avistar do fundo da rua, onde sempre apareces, como se o mundo viesse de trás de ti, te acompanhasse. Vislumbro, como uma brisa, os teus cabelos curtos, negros – generosos, que dão o enquadramento preciso a esses teus lábios onde paira um misterioso sorriso, que nunca tenho coragem de saber a razão. Contigo, trago sempre a vaidade estampada no rosto, na simples observação dos pequenos detalhes. Contigo é fácil responder à interminável questão – porque amo? – Porque a resposta é sempre este gosto quente e saboroso dos teus olhos a repousar nos meus.

16.10.07

... Se o arrependimento matasse




Os dias começam sempre da mesma forma - como se o arrependimento matasse.
É hoje à noite que vou deitar-me mais cedo, que vou deixar o raio das coisas que não valem a pena, que me vou concentrar apenas no necessário, e acordar amanhã cheio de vontade de começar cedo. Como se cedo houvesse algo mais importante que fazer, do que de tarde. E depois – quando é que é tarde e quando é que é cedo?
As perguntas bailam à minha volta, enquanto aspiro um iogurte antes de sair de casa. Hum! – Está calor, a malta vai toda de camisa pela rua abaixo, são dez segundos perdidos à janela que valem a pena. Porra, a rua está cheia, vou levar montes de tempo para chegar ao escritório.
A mesma rua, o mesmo edifício, as mesmas cores, os mesmos cheiros, 2ª ou 3ª ou 4ª, ou a porra da vida toda a correr pelas rotinas que afinal, consigo perceber que tanto jeito me dão.
Olho os outros, embasbacado por sentir que o que sinto é meu. Olho os pormenores sem importância e dou importância ao que pormenorizo e deixo entrar na minha vida. Olho as horas, passam infindas ou apressadas, como se eu não estivesse por aqui, o trabalho que se acumula, os papéis e as reuniões, as discussões, as teses mal defendidas, as estratégias, os puxões e empurrões do ódio a mim mesmo por não ter coragem de mandar quem quero dar uma volta ao bilhar grande, p’rá porra de um sítio no quinto dos infernos.
Os dias começam e acabam, como se não houvesse fronteiras entre eles, e a vida fosse um único dia, uma única vida. Ainda é cedo, nunca mais é tarde, nunca mais é noite, onde as vistas se escondem e apenas tu ficas, o teu rosto diante de mim. Amanhã vou acordar mal, é hoje à noite que vou deitar-me mais tarde.

20.9.07

Resposta


foto de Lia Pansy
Não respondes. O teu silêncio corta-me o fôlego, deixa-me descompassado, triste. Irrito-me na proporção do meu egoísmo, na miserável auto-estima de que hoje toda a gente fala. Só sei que não me respondes. Os dedos bailam no teclado, procuro incessantemente o teu nome, as mensagens entradas, as chamadas não atendidas no fim de cada reunião, como se a vida de fora estivesse suspensa.
Procuro o significado de resposta. Procuro perceber o antes e o depois, a pergunta que a sugere e a não pergunta que não a causa.
Aceno que sim a mim próprio. Afinal importa mesmo ser respondido, importam os afectos e os gestos, e as coisas que os livros das psicologias falam, do que me emociona e do sentido do que tomamos como nosso, como meu.
Se gosto ou desgosto, ou não gosto, mas é meu: o meu amigo, o meu inimigo, o meu conhecido, a minha namorada e a minha mulher. Tudo o que vejo e sinto – é meu. E o que é meu, guardo, guardo mesmo sem que seja preciso inventar nada para guardarmos coisas tão grandes e preciosas anos a fio. Insubstituíveis, preciosas, inestimáveis, oxigénio e sangue, carne da nossa carne, e das minhas dores por onde filtro o que realmente me dói. O que é meu.
A não resposta é dor, porque me arranca e violenta o que é meu, aquilo que me torna corpo inteiro, que me faz feliz.
Responde, mesmo uma não resposta é sempre melhor que um silêncio, um vazio, um interminável minuto em que o vento se cala, as luzes se apagam e me torno escuridão, opacidade, invisível.
Responde meu amor, ou pergunta porque estou aqui, na mesma varanda onde um dia me mostraste a tua cidade, os teus muros, pedaços da tua infância e desse teu eu, a que sempre quis responder como meu.
Do outro lado do tempo, na cidade dos porquês, tenho uma sala marcada, esperando sempre pelo teu, que tem a resposta guardada aqui dentro. Um sim despojado e profundo de quem tudo pode dar, porque tudo se entrega a quem de verdade sabe perguntar: Queres ser meu?

11.9.07

Crónicas de Monoamor.


foto de Jorge Casais

Por uma última vez, não volto a perguntar se me queres. Ponto final e não ponto de interrogação.
Arre, que um homem tem uma dignidade, tem uma espinha. Parece que quando te sinto, é mais fácil mentir. É na solidão que me desatino, é na tua ausência que passo ao contra ataque a mim próprio. Porra, os sentimentos são tão parvos, tão ao contrário do que quero. Parece que há gente que nunca tem destes problemas. Afinal, quem vive melhor?
Sinto a forma como desvias o olhar, nem sei o que queres dizer. Pareces fugir, ao mesmo tempo como se te desgostasses de não quereres exactamente o querias querer.
Chatice das palavras. E se falássemos por telepatia? - e se nos entendêssemos sem ser preciso falar?
Que tal inventar uma comunicação mental. Bem, isso não era bom, não podia guardar segredos, seríamos nus a todo o instante.
É de tanto te querer que me calo, que emudeço e paro. Uma vez perguntaste se desisti. Nunca, porque não posso, não porque não queira. Que pode fazer alguém se ama? Não se inventou ainda um chá de desamor, que me tire deste todo, dum corpo pegado a um olhar, dum desejo sereno, às vezes louco. É como uma dor que não sai, mesmo que me queira distrair.
É de tanto querer que me dói o teu não? – Não, não é. É mais, de não encostar o teu não na beira da estrada e seguir. É de me embrulhar nesse teu corpo, lindo, desejado, desse teu rosto, desses teus olhos. Nem me lembro se é lindo, porque não existe onde me apoiar, onde comparar.
Sais de mim, com uma simples frase, o teu movimento é um não movimento, as tuas mãos fecham-se escondidas no meio dos teus braços, encostadas nesse teu peito que queria alcançar e sentir.
Tens as mãos nuas, envergonhadas – olho-me no vazio, na estranha sensação do ridículo, nessa tua expressão vazia de quem nada tem para me oferecer.
Olho o teu rosto – não quero o teu beijo prolongado, não quero estar aí, quando te despedires na lembrança de um adeus, cruel.
A minha esperança são os poemas, o acreditares que vou ter sempre essa pequena luz se quiseres regressar – ao menos terei sempre a esperança que voltes, e tu porque a luz brilhará, mesmo fosca, o convite para te deitares, cansada, gasta de procurar quem te ame mais, ao lado desta pobre paixão inacabada.
Há um ar fresco de fim de Verão que se recalca no final das tardes. O Sol esgueira-se, tu permaneces, cercada da soma dos olhares onde nunca mais dançarás a roda, eu por aqui fico falando ao destino destas histórias. O destino aborrecido, diz que sim, pois é, pois é, complacente, cheio – afinal não há nada de novo nesta história..

19.7.07

Há quanto tempo não fumo




Dou por mim sem o cigarro de sempre. as mãos desgovernadas, a dôr intensa de um peito despovoado, os lábios sem a mortalha, sem o calor que tanto me consola.Dou por mim sem o fumo, sem os dois dedos cúmplices, sem o retrato estereotipado do pensador. dou por mim sem cigarros, sem enlouquecer, tantando perceber que sou livre, mas estou preso na saudade. Ai cigarro, que mal fazes, que falta fazes. nem o cachimbo, nem a cigarrilha me vale, é o cigarro que me falta. De nada vale, o cigarro vai ter de me abandonar...

25.6.07

Crónica da Saudade




Fechei a janela encadeado pelo Sol que já me fustigava os olhos. Acabaras de sair e já tinha saudades de ti. Aspirei lentamente o teu perfume que ainda se passeava pela minha casa, e notei a ausência que já se arrastava nos vazios que deixaras. As gavetas desalinhadas, os espaços onde cabiam teus livros, a minha escova de dentes só e desgraçada. Olhei o espelho, vi nele as rugas marcadas, olhos inchados, vermelhos, uma sombra negra, fantasma do tempo que o futuro ditava assustadoramente real, contornando o vazio de um olhar que não me reconhecia. Quis ver-te onde não estavas, fechei os olhos e senti teus braços apertando-me, o teu sussurro inconfundível, dizendo do quanto tínhamos sido felizes.
Percorri o silêncio que inundava as paredes. Havia momentos espalhados por todos os pequenos detalhes. Nos nossos retratos, os sorrisos que agora são histórias velhas, diziam do quanto o tempo dita a mudança, da ternura que se perdera, das cumplicidades juvenis, dos concertos inolvidáveis onde te olhei e me senti único, das compras a dois num mercado de cores e cheiros que ainda hoje lembro, das flores secas, pedaços de nós que trazíamos para casa ao fim dos longos caminhos.
Sentado na beira da nossa cama, os lençóis amarrotados e velhos, quis saber onde nos tínhamos perdido, onde a vida se nos cruzara, e de fronte nos perdêramos. Ficou a simples explicação que cada ser dá a si próprio. A desmesurada e incontornável força da vida, como maré de Setembro que não perdoa a quem deixa os pés demasiado junto à beira da praia, e traga os incautos que se aventuram no olhar da espuma.
Percebi nos meus ombros gelados, há quanto tempo assim estava, lembrei os poemas que te fizera, o teu sorriso ausente, a expressão do teu olhar, quando ao fim da noite voltava, e os nossos beijos já nada diziam.
Calei-me, na bruta agonia incontornável da viagem já perdida, da eterna dor das saudades que restam e permanecem.
E num esforço derradeiro, soerguendo-me, deixei que a tua música tocasse repetidamente e me embalasse até adormecer.

22.6.07

Nasceste das palavras




Nasceste das palavras, como seara verde, fresca que rompe ao claro da manhã, como a luz das auroras mais claras, foste pássaro que me olhou no beiral e não se recolhe nem foge, antes permanece entoando o canto de conquista.
Dos teus dedos, percebi o toque seguro dos que se encantam e amam com a determinação de um guerreiro, a vontade dos caminheiros que se levantam e querem chegar mais longe. Sinto-te, presente em cada dia, na música que me embala, nos sentidos que se despertam ao perceber-te. Arranco de mim as perguntas para as quais só tu surges como resposta.
Depois vêm as noites que se seguem aos dias intensos, às ruas cheias de gente e de nada, dos nevoeiros densos das chaminés antigas, dos braços caídos de quem vive por viver, das margaridas murchas, desbotadas, dos artifícios dos sorrisos cosméticos, dos enganos de meio mundo a outro mundo mais que meio.
Mas quando a madrugada rompe, e num clarear furtivo, consigo romper na manhã, livre e intensa, no cheiro da brisa que se acorda, cruzo a cidade magnífica, limpa, húmida do silêncio virginal que os adormecidos não entendem Aí estás outra vez, perfeita, magnífica, dada, ao meu amor, rebentando num poema que se desenha, decalcado desse teu rosto, tatuado em mim, só para que os teus olhos se abram, a tua boca sorria, o teu corpo se deite e me diga, que esta paixão, nascida das palavras, é rosa aberta que não morre mais.

5.6.07

Se …


foto de Jorge Casais

Há sempre um se nas nossas vidas, uma ambiguidade própria dos seres que têm a capacidade da escolha, dos que procuram estar e alcançar, o que não têm, o que não sentem. A verdade de cada homem, é momentânea, perene, simples, complexa, fechada e aberta ao mesmo tempo, sem forma de medir horizontes, sem réguas que sejam mais que referência, medidores.
Á minha frente, uma estrada imensa, chamada pensamento. Por isso sou mais que a soma dos átomos que me fecham neste objecto chamado corpo. Mas é do corpo que trato, é dele e nele que vivo e desejo e me excito e sofro. E desta grande chatice não tenho forma de me livrar, quanto muito – olhando os céus e descobrindo a inexistência, a periclitante instabilidade e fragilidade, a imperfeição, o desejo de não ser o que olho, quando me fito num qualquer reflexo. Desejo ser deus infinito, onde me perpetue e me entronize e apenas reste o que quero ter de bom, magnífico, sublime. Como o meu cão, que se baba diante das migalhas do meu prato, procuro infinitamente a felicidade, colocando em cada lugar a marca do que realmente quero. E se o que quero, não é propriamente para mim, encontro nesses gestos, a suprema felicidade de optar pelo mais condicionante dos se, quando a tristeza, a opção, o abandono, o meu desmembramento, é a felicidade do sorriso de quem amo, de optar entre mim, e quem construo na minha liberdade de amar.
O se é a nossa estrada, é a liberdade dos que encarcerados são mais livres que os indigentes, dos que sonham a morte como recompensa de vidas mal vividas, dos seres enamorados, que sempre esperam mais que a luz do sol incidindo nos rostos já passados, das rugas que contam histórias envenenadas pelo futuro sempre a chegar.
O se é a derradeira forma de sorrirmos, sabendo que a escolha é nossa. É a forma sublime de contrariar o destino, de escrevermos palavras que não estas, de nos deixarmos ir sem destino…, se

28.5.07

Um mau momento


A lua encolheu-se de mansinho, dormindo sobre a grande copa do carvalho que me vigiava a vida desde pequeno. Pela minha janela, percebi o Mundo que se espalhava lá fora. Dei conta das horas perdidas, das gargalhadas decepadas pelo mau humor, das faces frescas acolhedoras, transformadas por choros inesperados, traidores. Um copo quase vazio, servia de enfeite à mesa castanha escura, onde uma caneta e um lápis, se chegavam mirando os dedos amarelados que os apertavam a maior parte do tempo. A caneta chorava todos os amigos já perdidos, do tempo que ali passava.Dei-me conta de que passava por mim, mais um mau momento. Os maus momentos que de agudos, tendem a passar a crónicos, como uma doença insidiosa e dura que nunca perceberá o que é a paz de uma vida longa e feliz. Levantei-me ao ritmo de um último trago que o copo me oferecia, os olhos doridos e vermelhos, perceberam a insondável crueza dos dias somados, da fuga que a juvenilidade tomara, cansada das somas duras dos cigarros irrepetíveis, dos bagaços sem conta, das mulheres que nunca repetiam os mesmos lençóis.E vieram as lágrimas e as frases babadas, arrependidas, o copo mordido de seco, a vontade de tudo limpar num olhar marejado, procurando a lua que dormia.Como sempre, acabei estatelado no sofá coçado e cansado de mim, as folhas soltas pela mesa, a eterna ausência de ti, a triste sina de me render, com a razão que me derruba e sabe dizer, quando me olha de soslaio e foge outra vez. Deixa estar, é só um momento mau...

6.5.07

Um texto


A noite está cheia de luz. O rádio toca baixinho, diria quase imperceptível para o comum dos vizinhos que se incomodam em dormir. Os dedos agitam-se no teclado, percorrem demoradamente cada palavra e vão alinhando o texto. O cabelo em desalinho, adivinha as horas, percebe a nudez dos pensamentos que se recusam a transpor as mãos esgotadas, as pernas dormentes da posição esquecida em frente ao ecrã. No entanto ele permanece na sua melancólica desdita de escrever. Há nele um sorriso misterioso, imperfeito e louco, que nada explica.
Já é quase madrugada, o dia foi tão longo, como todos os dias teimam em ser, como todas as caminhadas se tornam dolorosas, quando os pés se recusam a obedecer, e as mãos incham de se arrastarem atrás de nós, sem uso, sem expressão. Não é o caso; - o escritor permanece no uso da escrita; defronte dele, não se nota um ecrã, mas olhos vidrados, pedaços de água, que caem de vez em quando, da luz que lhe rói as pupilas, das imagens que desenrolam o filme que lhe atravessa a alma.
Há desejos escondidos no esconso de um coração solitário e clandestino.
Ela lá estava; - permaneceu inquieta e feminina, sem nada para ousar, os pés bem assentes nessa terra de onde se recusa a partir. Ficou uma flor no cabelo, e um gesto bem desenhado com o dedo indicador, por baixo do seu lábio, como se a escrevesse, como se a inventasse. Afinal nada mais foi que o pedir de um beijo, sempre adiado, sempre questionado.
No coberto da tarde, quando permanecia diante dela, as águias costeiras voaram em redor dos dois. No voo picado, na procura de alimento, percebeu o escritor, o quanto é difícil sobreviver sem luz, o quanto o rosto daquela mulher lhe atormentava o caminho, e ao mesmo tempo o empolgava na certeza de um terno e simples olhar, na macieza das palavras que o confundiam e inebriavam, como se um simples gesto tivesse o efeito de uma gola macia que protege um colo ao vento gelado que vem do mar.
Do rosto inexpressivo do escritor, descobriu ela uns olhos mendigos, incessantemente cravados no mais puro que o coração dela continha, e ela, no espaço das sete ondas requebradas na areia, soube estender a mão e deixar-se levar bem junta ao ombro do homem que a queria.
A noite já se vai despindo. Molha o rosto, e olhando o espelho, percebe as rugas de tantas vezes se olhar. O escritor olha pelo canto do olho, a sua cama completa. Nela, nessa cama infinitamente despida, repousa hoje um corpo diáfano, um corpo com o sabor das marés, com o gosto breve dos desejos satisfeitos, com lábios que se deixaram calar. Pelo canto do olho, percebe o escritor, que escreve o discurso simples e directo, dos que se encontram e se amam, e das suas mãos, voam as palavras que nunca saberá dizer, mas que se colam nestas folhas, onde se retrata de toda a sua paixão.

23.4.07

A Foto


foto de Hugo Amador

Folheava aquele livro que nunca mais conseguia acabar. Reli a contracapa, e distraído deixei-o cair, numa das minhas noites em claro, pedindo ao sono que me levasse. Uma foto bem antiga, caíu de dentro, mal revelada, disforme, confusa. Percebi-te nela, relembrei o momento e o local. Lembrei-me porque a tinha guardado, ao percebermos que era só nossa, que só nós a entenderíamos.
Tu, com aquela blusa que eu gostava de te despir, nos fins das tardes, quando voltavamos ao nosso quarto pequeno, naquela pequena pensão, que mais ninguem sabia conhecer, a nossa janela redonda, bafa, onde espreitávamos as gaivotas voando de encontro ao vento. As nossas tardes e os nossos banquetes de vinho e queijo com as bolachas roubadas da cozinha da Dª Lucília.
Lembrei-me de tudo, do teu rosto que ria, nas palavras que me oferecias como beijos, incessantes, quentes, lentos, infindáveis. Olhei a foto, porque já nada se percebia, desfocado, o teu rosto tinha a aparência dos dias de hoje, dos dias em que já não estavas, das memórias atraiçoadas pelo caminho onde as nossas vidas se voltaram a descruzar.
Olho outra vez a nossa foto, percebo teus braços que me chamam, que não se querem separados por memórias, que agora percebo, nunca vencem o tempo. Percebo a foto, e as histórias que sempre ficam, apenas escritas, apenas fotos, desfocadas do tempo, difíceis de guardar, como as nossas vidas, que um dia caíram do livro, já antigas, já passadas, mas vivas.
A tua foto, sem ti, está já num envelope, o teu nome escrito a negro, quem sabe, se um dia o abrirás de novo, e te lembres e te encontres comigo, junto às gaivotas que continuam a voar de encontro ao vento.
Não esqueças o vinho. - o queijo e as bolachas hão-de arranjar-se.

17.1.07

A Janela


foto de Hugo Amador

Recostado no meu sofá, chamei o João, e uma pequena palavra soltou-se-me da boca:
- João, abre-a.
O João sentou-se aos meus pés. A luz pulsou em incontida energia, e a sua pequena boca soltou um ah de enormidade.
Todas (ou quase todas) as tardes, o nosso pequeno gesto se repetia. Por aquela janela, toda a perfeição e sonho se construía. Mesmo em intervalos de distracção, debruçávamo-nos de inveja no carro prateado, na sopa de sabor único, no sabonete sem cheiro que nos deixava loucos de felicidade, e o João dizia: - Pai, compra-me! Pai dá-me! Então voltávamos ao que passava na janela, já com mais atenção. Sim ali tudo era verdade. Nua e crua, como nunca se teria visto sem aquela janela aberta.
– Para quê a matemática, ou o esforço? Para quê o trabalho? O calor? O frio? Para quê uma viola ou um livro? Bastava a janela aberta, a mão crispada do João perante as personagens que nos piscavam o olho ali mesmo ao pé. Sabem, já sou íntimo de uma tartaruga reconvertida a humana, e inimigo feroz de uma ratazana que quer destruir um lago.
Um casal acaba de fazer amor. O homem olha uma suposta janela e afirma vir a Primavera, a mim, que desgraçadamente sinto o Inverno a bater nos vidros.
Ignorante que eu sou – olhei outra janela. Como posso agora agarrar as sensações, inverter as cores. Vestir-me de mágico ou correr num autódromo.
- Olhar outras janelas é já incontidamente uma revolta! Desconcentro-me e perco as massas de malabarista, o dom da palavra de qualquer político. Sinto-me mal na gabardina de qualquer treinador de futebol.
- Pai! Pai! – Volto os olhos, o João olha-me na nudez dos seus poucos anos, interrogando-me, num olhar esquisito, cómico, invulgar. Sorrio, contagiando-me até às gargalhadas. O miúdo saltita-me no colo. – Tu estavas a dormir, Pai. Já a fechei! – Tenho aqui o livro. Pai lê!
Peguei-lhe a mão. Abri de par em par a janela da varanda. Peguei-lhe ao colo e abracei-o. Sim, que eram janelas, e prédios que se viam das janelas, mas era a maior sensação de liberdade e de ternura que sentia. Olhei-o e olhei para dentro do mundo, olhei as horas perdidas no sofá, e dei comigo sentado no chão, pernas cruzadas, lendo-lhe o livro, imaginando como aquela flauta mágica tocava só para nós dois.
Entretidos, ouvimos ao longe uma voz de mãe, chamando – então hoje não se janta?
Olhámo-nos os dois e dissemos em coro: Mãe anda, o jantar sabe esperar.

Por Ela

Olhei-a de soslaio, sem deixar entender meus olhos fitados nela. A sua beleza descrevia o entardecer magnífico de um qualquer campo de trigo amarelo, amadurecido no pincel de um qualquer Van Gogh. Derramava dela a brutal incompreensão do absoluto, um mar de solstício de Setembro, forte e rude, belo e vital.
A presença dela, inundava a luz das coisas em que tocava, inventando áureas mágicas, texturas forradas a prazer, entregando-se nos gestos que compunha – banais – como se fossem momentos únicos, actos solenes, deíficos, imaginando (eu) que seus beijos fossem obras de autor, ternos consolos de quem se sentia um Cesário perdido nos braços da sua amada.
Foi então, sim foi então que a desejei. Desejei-a como se deseja no íntimo de cada alma, ansiando a plenitude, resgatando gestos, olhares, pedindo os cabelos, as pernas, as mãos, os seus seios. E fui então o maior dos poetas, compus oitavas de génio, falando de amor e solidão, incontornável veste de poeta, da muita solidão – e falei de todas as ruas onde a queria levar. Pintei o seu nu com a arte que se arroja e a decência inocente dos anjos. Cantei o madrigal mais terno e leve que se deseja cantar, quando o seu rosto por fim repousar no meu ombro.
Parei. E o meu peito arfava. Havia tecnicamente, como que a impossibilidade de respirar. Num esgar, o meu rosto contraiu-se, os olhos humedecidos pedindo – como qualquer pedinte que se verga a pedir do desespero de nada ter. Decidido, ergui-me. Ergui-me, como qualquer homem se ergue no meio da noite do leito da sua amante, arrefecendo no caminho os pés que o levarão de volta à cama conjugal, sempre quente.
Olhei-a uma última vez, na doçura de um quadro pintado pelo melhor dos artistas, lembrou-me uma bailarina de Degas.
A história chegava assustadoramente a um eminente fim, quase possível, evidentemente clássico. Os meus passos transportavam o sorriso dos conformados, ébria virtude de quem sofre da mais profunda imaginação, e se perdoa diante dos santos, que riem de todas as preces com a mesma terna e impassível candura.
É agora que se inventa um final feliz. Logo ela virá correndo, quem sabe, perguntando as horas, um endereço. Depois, porque não, conversaremos, marcaremos o encontro no café, que será o de todas as vésperas, e o amor, o que move e desenha palavras, nascerá perene e doce, até ao fim deste conto. Ela, será forçosamente a razão do sonho de um homem, a razão, de sempre se perder a razão – por uma paixão.

2.1.07

Paixão vs morte lenta

A paixão sai de mim como se fossem cavalos selvagens que nenhuma cerca segura. – nem sempre - às vezes a vida apanha-nos, cerca-nos com os mais grossos elos de aço, as mais finas cordas, e o medo, o medo de virar mesas e cadeiras, de partir à procura da verdade, de entregá-la no colo de quem queremos.
Ficam as coisas belas, derretendo nas mãos, queimando-nos os dedos, enrugando de tanta espera. Inventamos as palavras e, perdemo-nos...
Às vezes um gesto seria tudo, uma mão sobre a outra de outra, um sorriso talvez…
uma carícia mais ousada, com uma desculpa de permeio. Mas existem as palavras. Então, rodamos em círculos e círculos, e inventamos as rotundas da nossa vida, donde nem sempre sabemos por onde sair, ou não queremos, ou não podemos, ou esta hora já não pode ser mais longa, porque pode perigosamente dizer, o que o coração teima e a razão proíbe.
É preciso contrariar a morte lenta.
Aproveitar as verdades que vêm de dentro de nós, as emoções e a química que os outros nos provocam, e da paixão, da infinita e malvada paixão que nos devora.
Às vezes o amor parece ser uma coisa mais bonita e serena, mas é construído, e tudo o que é construído tem planos e projectos...
A paixão é no fundamental aquilo que nos aguenta, nos transforma, nos faz viver com os olhos encharcados de alegria,
às vezes inventando
às vezes enlouquecendo,
de sermos ou termos de ser tão racionais e pragmáticos. Depois existem as horas, os filhos, os atilhos e os empecilhos, a família, o carro e o arranjo do carro, a TV e a TV cabo, os vizinhos e o barulho, e a lista do supermercado, e o fato novo e a camisola velha, e existem aqueles seres especiais a quem nada nos liga, mas que nos ligam ao imaginário e ao amanhecer com fome e com vontade de não morrer lentamente...

24.11.06

E de um poema nasceu... II

Deixou um poema em cima da mesa e saiu. Sabia que ela, ao sentir o frio do outro lado da cama, saltaria pronta, procurando onde tinham feito amor, a mesa nua e fria, ainda quente do seu corpo, sulcos de si própria espalhados nela, e assim, perceberia a folha cheia, acolhendo palavras para si.
Não, não era um recado, nem uma justificação, nem concerteza razões expressas de forma polida e omnisciente, desculpando-se. Era um poema, zurzido da consciência do impossível, dos pedaços dos dois, que ainda ontem pareciam não conseguir se despegar, iluminados da loucura que os prazeres quando libertados, emprestam aos corpos e lhes dão aquele brilho, que só os amantes sabem contar e explicar dentro dos seus corações.
Uma dolorosa e delicada expressão de amargura, empalideceu seu rosto, sentindo a solidão dos amantes traídos; olhou de lado a sua cama, desarrumada, os lençóis descaídos e soltos, as roupas espalhadas pelo chão, como um mapa, com pontos demarcados e uma história apensa a cada um.
Já sentada na beira da cama, contida no seu próprio corpo, escondendo seus seios em seus braços, as pernas geladas, vermelhas, unidas na estupefacção do seu próprio ruído interior, procuraram nas palavras uma nova força, um destino, uma alma.
Encontrou-o mais uma vez. Como sempre, arquitecto de palavras, demasiadamente doce para a sua manhã, o rosto dele na sua memória - definhando, e foi lendo, e lendo, sem compreender onde chegava.
Era a carta de um homem com medo do amor, como se não lhe tivesses deixado os seus portões abertos para entrar, era a carta de um homem preso ao espaço e à resignação do mundo que trouxera atrás de si, como se ela alguma vez tivesse ousado tocar em seus haveres, ou pronunciado a palavra passado. Era ele e seu mundo, e a irrazoável forma de dizer adeus cobardemente, como se num último rebate, abandonasse a prancha mais alta e recusasse o salto para um mar maior e mais azul.
Ela sorriu, arrumou o quarto, tremeu de frio, e percebeu o quanto tinha estado nua, agasalhou-se sentindo o conforto do seu xaile de seda, onde tantas vezes repousara o seu amante, e sorrindo mais uma vez, abriu a janela que dava para o meio da rua, o rio entrando pelas suas narinas, extasiado do fresco ar húmido e salgado que a abraçava, e convidando o Sol a entrar, escutou no seu rádio a sua música favorita, trauteando um novo canto, sem saudade, sem rancor. O amor, o seu amor haveria de chegar outra vez.Ele, parado no meio da rua, queria perceber o que tinha escrito, a impulsividade que o dominava, o medo de magoar, de prolongar sonhos sem esperança. Doía-lhe o peito e a saudade dos lábios dela. A manhã não lhe dava tréguas, de ter sido acordada tão cedo, enregelou-lhe os ossos, como querendo que ele voltasse ao leito que tinha deixado. Sentia o perfume dela, abraçando-o, mas soube que a outra história devia estar destinado. Final de história, os passos levavam-no em frente. Sorriu na compreensão, do quanto ela ficaria no seu peito, na sua memória, e amou esse momento na plenitude de um grande final e do quanto os momentos são diferentes na medição do tempo e dos seus segundos. Veio-lhe à memória a mesma canção, que tocava em todas as janelas abertas, a sua canção, espalhada por todos os rádios, esperando que ela também o tivesse ligado, trauteou baixinho para ela, que o amor nunca irá partir, um dia o amor, o seu amor haveria de chegar outra vez.