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30.10.06

E de um poema nasceu...

Foram muitas as palavras, trocámos poemas e comentários, avolumou-se a caixa postal. Cada vez, as palavras faziam mais sentido, olhava cada frase, cada poema e só sabia que todos os dias, ia querendo mais e mais. O gosto da cumplicidade preenchia os nossos tempos, e percebemos que tínhamos criado algo único e pessoal onde só nós podíamos entrar, como os cantos secretos dos adolescentes, onde o mistério e o segredo animam cada fracção do nosso corpo. Tremia só de pensar nela, percebia nas palavras dela, a mesma intimidade, a mesma necessidade de algo diferente e especial, que só cada um de nós podia dar ao outro.
Um dia acabamos por ir mais longe, trocamos telefones e e-mail, soubemos como era o aspecto físico um do outro (como se isso interessasse), e combinámos encontrar-nos. O medo e a ansiedade iam tomando conta de mim, já sabia quem eras, quanto esse teu coração podia entregar, a profunda sensibilidade que criavas em cada poema, a forma como sentias a vida. Decidi abandonar-me a esta paixão, nascida da emoção das palavras, sem qualquer destino, sem qualquer certeza. Apenas como se o mundo fosse um recanto ingénuo, onde nos faríamos felizes, para além de qualquer coisa. Decidimos encontrar-nos.
Olhei-te demoradamente, como se já te conhecesse, como se o teu olhar estivesse para além de ti, da tua forma, da tua roupa. Pousei meus olhos nos teus lábios, segurei tuas mãos, sentindo nelas a força da tua escrita, e quis meu peito contra o teu, como se já fosses minha e te abandonasses sem receios.
A verdade de um beijo formal e um “como estás?”, parecia não fazer parte do nosso quadro, mas foi assim que aconteceu. Procurámos uma esplanada, agradecendo a mesa que nos dava a distância suficiente a nos entendermos, e tentámos começar a conversa, que no nosso canto era tão fácil e fluida. Percebemos rapidamente o nosso embaraço. O nosso desejo contido pela formalidade física, as nossas limitações do outro lado da vida. Formais e inquietos, entregávamos sorrisos tímidos, perguntas esbarravam com os tiques nervosos – tu meneavas o cabelo, eu arrependia-me quanto podia, de ter deixado de fumar.
Acabámos por começar a conversa, acerca do teu poema que escolheras não sei para onde, o tal que me pediras ajuda. E depois foram conversas sobre mais um e mais outro, a vida começava a fazer sentido outra vez. Perdemo-nos nas horas, nos compromissos, fomos papel e caneta, escrita a dois, poemas inventados, a felicidade de nos termos, e por fim um poema em cima da mesa, que copiaste numa letra soberba e me entregaste. Já não sei se nos despedimos ou ficamos, se nos beijamos ou nos amámos.
Essas são as memórias que o nosso canto irá guardar para sempre, como nós dois guardámos esse poema que só nós, sabemos dizer de cor.

13.9.06

Um Homem e uma Mulher - A despedida

O Homem percebeu que ela se levantava, sentiu o roçar dos lençóis por aquela pele macia e quente que tocara voluptuosamente. Os olhos semi-abertos, o torpor de uma noite selvagem e inenarrável acariciou-o, e os seus lábios retomaram húmidos a memória de cada beijo dado, a impaciência dos gestos que se inventavam. O seu corpo sentiu-se desligado do outro que fora seu, e percebeu a manhã, o fim de uma noite que talvez não voltasse. Remeteu ao silêncio todo o seu corpo, concentrou-se na respiração dela, quis percebê-la antes de falar e perceber onde ela estava.
Não foi preciso.
- Ali estava ela, debruçada sobre ele, os seus seios doando-se, os seus cabelos afagando-o.
- Vou-me embora, já é tarde.
- Porque não ficas, depois levo-te… Espera…
- Não, não vale a pena, tenho de ir.
A Mulher saiu dele, endireitou-se e sorriu, e depois como se já tivesse ensaiado aquele discurso, rematou certeira a incontável questão:
- porque me falas em esperar?
A Mulher vestindo-se, foi caminhando para longe dos seus braços, sabendo o quanto era importante aquela conversa, aquela derradeira conversa.
- Porque me falas de esperar, quando o que sinto é a presença constante de nos termos?
- Falas-me de parares num qualquer cais, como se a vida não fosse um constante movimento…
- Se eu gosto de estar contigo, de te fazer feliz - disse o Homem - como não te pedir que fiques?
- Mas aquela Mulher, estava decidida a não esperar, e logo adiantou:
- Não, não é esse o caminho que quero. Apenas percebe o quanto a vida nos cria barreiras incontornáveis, como não podemos abdicar das amarras que temos. Não consigo encontrar espaço, por isso falo em voar, em me manter à tona do que neste momento é impossível. Há sempre espaço para a fuga, mas a fuga sem ser assumida, transforma-se em voltas em círculo, transforma-se num desespero, onde os momentos já não são aquilo que aceitámos, mas são um caminhar constante rumo ao imaginário.
Só que a vida é real de mais para que eu aceite este tipo de caminhos.
A Mulher meneou a cabeça, dando um jeito no seu cabelo, escovando-o com a força das suas palavras, olhando o espelho, como se a primeira pessoa que quisesse convencer fosse mesmo ela. Os seus seios já cobertos, a pequena tanga dando o contorno às suas coxas, desenhavam a força daquele momento.
O Homem pensava e desejava-a no mesmo momento. Queria-a e queria-a perceber. Não sabia qual a razão que iria vencer. Abandonou-se na cama, imóvel, escutando-a… as palavras dela, entravam nele, e dominavam-no como se algemas fossem…
- Eu sei o que o meu coração guarda, sei o quanto é bom pensar, sonhar, tocar-te, ter-te. Mas não consigo sair daqui. Não sei chamar-te de meu amor, porque o amor é incondicional, não se verga ao medo da clandestinidade, dos episódios fugazes, dos quartos escondidos, de não querer acordar barulhos que nos denunciam. Sim, não sei ainda chamar-te de meu amor, porque não me sinto tua, porque não posso dar-me na plenitude.
O Homem percebeu o quanto tinha disposto dela, forçando-a à sua vontade, ao esquecimento das regras com que se enfrenta a vida, a deixar uma outra história incompleta, a fazer perigar um outro destino.
Mas a sua vontade despedaçava-lhe qualquer pensamento, que não a vontade de a ter. Calou-a, sem mesmo lhe dizer nada, estendendo-lhe o olhar de um amante, que pede, e falou:
- Um dia disseste, clara e lúcida, que rejeitas ser amante, que és plena e de corpo inteiro, exactamente o mesmo que eu penso, e para o qual não quero prosseguir. Não me aceito a dividir-te, não me percebo dividido. Existe um frémito de magia nas minhas mãos, que se torna real no teu corpo, na forma como nos demos, no sabor do teu corpo estendido sobre o meu. Isto, ninguém nos tira, e por isso fico acordado a todas as horas, mas numa espera que não tem hora, que não tem ritmo, que se transborda apenas no momento certo, no momento que poderá existir, mas que nasce do nada, que nasce da vontade, e essa vontade, e esse desejo, são as coisas que permanecem. Tudo o resto são dores e sofridas vontades sem lugar.
A Mulher recolheu-se nas lágrimas que a paixão sempre faz transbordar, percebendo o quanto seria difícil guardar aquelas palavras, aquele leito, aquele quarto, aquele Homem. Não quis dizer adeus, não quis fugir, sabendo que não poderia ficar. Aproximou-se mais uma vez, já vestida, já tratada, olhou-o, com o fino olhar sem distâncias, a boca quase colada à dele, com a infíma distância que lhe permitia falar, e sussurrando, entregou-lhe as derradeiras palavras que lhe podia entregar:
- Sei onde estás, sei onde te procurar, sei que será melhor repousares nesta terra firme onde te sentes com mais espaço, com mais serenidade. Não, não te acordarei aos primeiros raios da manhã. Esperarei pelas noites mais frias, pelos meus dedos frios, que te querem no quente do teu leito. Esperarei que os teus olhos me queiram e saibam dizer sim, apenas quando o sim for dividido entre nós, sem barreiras, sem projectos, sem nada que nos possa cobrar um destino diferente, daquele que já a vida nos escolheu.
Por agora, apenas serei tua, onde mais importa, em cada memória, em cada pensamento, nas nossas canções, nas praças de todas as cidades onde fomos felizes. Tu ficarás aqui, e eu recordarei sempre esse teu peito pronto para mim, esse lugar vazio onde só eu caibo. O Homem entendeu que a tinha perdido, que a tinha possuído pela última vez, que a mais grata amante de sempre lhe fugia dos dedos, como a água transparente das cascatas, como as marés que nunca se podem travar. Olhou-a com a ternura que tudo tem quando acaba, quis senti-la uma última vez, recordar aquele rosto, tomá-lo para toda uma vida. E com a esperança de quem ama, antes que aquela Mulher fugisse, deixou-lhe nas mãos um último recado, com um beijo e um esgar de saudade que golpeava o seu coração:
- Fica nesse teu cais, eu irei como sempre navegando de porto em porto, colhendo a vida dos pedaços que ela tem para mim, retornarei sempre a esse abrigo, onde sei, te terei à minha espera, sem saberes o dia que voltarei. Voltarei, e tu serás sempre o meu porto. E se o vento estiver levantado, se a noite for muito escura, acende à janela o teu coração, que eu mesmo de longe, saberei quando voltar...
Na ombreira da porta, o rosto escondido, o coração tremendo, ele viu pela última vez o seu amor. Aspirou o perfume generoso dos lençóis, o cheiro daquela mulher, e soube que um amor daqueles, não tem volta, mas que a memória há-de sempre viver enquanto cada Homem, quiser a sua Mulher.

29.6.06

Encontro


foto de Harjeet Heer

Cheguei tarde a uma praça já cheia de gente. Como sempre, tinha marcado uma hora que não era a tua. Avistei-te ao longe, a tua expressão não me assustou, estavas serena, despreocupada, gozando o momento daquela praça cheia de gente, cheia do Sol tépido da manhã. Achei-te linda, irradiavas a luminosidade dos "close-up" de filmes antigos, o teu vestido lilás denunciava a tua graciosidade, na forma como olhaste em redor, procurando na espera. Por um momento, o medo de perder-te, de te fazer esperar. No seguinte, a força de te contemplar, fez-me ficar mais um momento. Os teus braços, como numa dança, levavam as mãos ao teu cabelo, juntavam-no num tronco castanho dourado, antevendo teu pescoço onde os meus beijos repousariam, enquanto te segredaria ao ouvido o quanto te amo.
Sentada nas escadas baixas do chafariz que acomodava a praça, sorrias, entretida com meia dúzia de pombos que bicavam migalhas espalhadas pelo chão, e novamente olhaste procurando, como com vontade de apenas olhar. Tua mão, procurou o interior da tua bolsa, saiu de lá o teu caderno azul, a tua caneta que juraste nunca perder, por ser a companheira de todas as horas. Abrias os olhos numa expressão devoradora, interpretavas imagens, desconcertavas as palavras. De repente estava do teu lado, um sorriso esperava-me, um beijo apaixonado trocado, as desculpas do tempo perdido sem ti.
Sentei-me nas tuas escadas. O teu poema obrigou ao meu silêncio, do teu lado, da vida que amo, dum Mundo imaginado, inesperado, desta praça mágica, onde sempre estás. Olá Poesia, que bom rever-te.

14.6.06

Paixão


I
Já não me dói o corpo, e ainda ontem jurava não sair da cama. Os meus olhos febris, vermelhos, alumiam-se como duas candeias, a chama trepitando, desafiando o vento. Vem, digo-te outra vez, desafiando o meu corpo que jura não querer mais. Sinto o teu corpo chegar, teu cheiro baila nos teus cabelos - desalinhados, lindos; e são já mãos que rolam, bocas coladas, como se a primeira vez fosse agora. Inventamo-nos, como se nunca tivesse havido princípio, e por fim, ofegantes, doridos, extenuados do prazer, olhamo-nos no prazer da espera, de querermos esperar, porque enquanto a paixão viver, haverá sempre recomeço.
II
Levantas-te da cama, não como nos filmes de classe A, onde vestes sempre a minha camisa, ou te enrolas num lençol fino de cetim. O teu corpo rola magnífico quarto a fora, as tuas coxas enfrentam a penumbra que a janela deixa entrar, e sinto-te em passos pequenos, cansados. Deixo-me ficar, quieto e mudo. Não pergunto onde vais, ou o que irás fazer. A tua nudez é a resposta que já tenho, que irás voltar aos nossos lençóis, e o frio da madrugada te fará procurar o meu corpo para te aqueceres. Grito de longe: - Traz-me um copo de água. Não respondes, apenas vens, teus seios salpicados de gotas de água, do copo cheio em excesso, ou talvez no tropeço da roupa amassada, estendida pelo quarto. Afagas a minha cabeça, quase como de um doente que necessita de ajuda, e dessedento-me em ti. Depois deitas-te, como esperava, procurando-me para te aqueceres, puxando o lençol, e oferecendo tuas costas, tuas coxas, à minha vontade. Quando me mexo, dizes baixinho - pára, vamos ficar quietos, estamos tão bem...
III
Agarro-te, sem angústias, com o à vontade que a ternura e o carinho me ditam, sinto-te serena, doce. Como dois adolescentes, as nossas mãos brincam, percorrem-se. Murmuro um poema, esperando que a memória não voe, e te possa entregar depois. Quase adormeço, meus lábios embaraçam-se nos teus cabelos, beijam teus ombros, e voltas-te, num movimento lento, deitando teus olhos em mim, sorrindo. Resgatamos os sentidos, como se nunca antes tivessem despertado - Acordamos. E somos corpo incendiado, labirintos de novos gestos inventados, searas de trigo fresco pedindo para ser colhidos, marés de Setembro cheirando a solstício, vagas rebentando em espuma branca, chegando ao areal onde nos amamos. Depois, como em qualquer Abril, derramamo-nos em chuva quente, arrefecendo nossos corpos, permanecendo amantes para o resto desta paixão.

9.5.06

Encontro com a morte

Havia naquele dia, um murmúrio estranho, que inundava as ruas, quase como a cidade tivesse ficado despida, nua. Não havia troca de olhares, cada um passava célere, envergonhado, enterrando-se pelo pescoço, curvando-se como se o vento vergasse as costas, e o mundo pesasse todo, em cada um.
Eram mil imagens a correr por segundo, mudas, em que cada um fabricava o seu próprio argumento, e cada gesto tinha de ser soletrado e imaginado.
Nas praças, os velhos de olhar perdido, sorriam. Miravam como sempre miram quem passa, e sem nada dizer,deitavam as cartas uns aos outros, no mesmo murmúrio, que ecoava em todos. Havia cheiro a memórias, e os passos descolavam do chão, sem deixar rasto nem som.
Subitamente, um vulto abraçou toda a praça, olhos escondidos, sem formas que pudessem revelar qualquer sinal, e num instante, todos recuaram para a deixar passar. Um braço, fino, cortante, tal qual um sabre estendido, ergueu-se e apontou na minha direção. Qual cachorro dócil e obediente, corri para ela. E à medida que me cheguei, num gesto voluptuoso, enorme, foram caíndo as suas vestes, seus olhos iluminando-se, os seus braços enormes preparando-se para um abraço eterno. A minha hora chegara.
E quando por fim me uni a ela, todos os sons e imagens, dispararam como uma máquina que volta a fazer o que sempre fez.
Os velhos, nada disseram, mas as cartas continuaram a ser deitadas, os sorrisos voltaram aos rostos, e cada passo, e cada gesto, e cada corpo, ecoou na praça, sabendo que lhe era permitido continuar.
Eu de mão dada com ela parti. Boa morte que me levou e deixou o Mundo à espera do seu dia.

2.5.06

Um momento


foto de LuisRossa

Fazia tempo que não aparecias. Passava tantas vezes por ali. Às vezes com a vontade surda, as pernas querendo estacar, os olhos passando cada rosto, procurando por dentro dos olhos, a mesma vontade que trazia. Nem vivalma. Todos seguiam o seu caminho, como se dissessem, na sua impavidez - já tenho, não quero.
Depois, partia por onde o corpo quisesse, sem vontade de parar, sem vontade de nada, deixando o tempo correr, ao ritmo de cada cigarro consumido, de cada copo esvaziado. Não te via, em nada, nem nas letras, nem nas músicas. Queria desistir, mas era mais forte que eu a vontade do vento, em fazer da minha vontade - veleiro, onde pouco resta, senão segurar o leme, e descer velas que soltam o desejo.
Julguei estar no porto mais seguro, a que alguma vez tinha atracado. Já estivara a carga, as velas descidas, a âncora funda e calcada, na vergonha de um barco parado, as cordas bem seguras ao cais da minha conformação.
Passaste, com os olhos frescos da manhã, e na tua pele, vinha o canto do desejo, as tuas mãos carentes de viagens, que querias dar, e chamaste-me, como uma sereia chama um marinheiro, que mesmo não querendo, ruma célere à ilha da vontade.
Na tua boca, trazias o beijo que eu queria selar, no teu corpo, a esteira onde me queria deitar, nos teus olhos, o desejo de uma noite para além da madrugada, onde ficassemos nús e mudos, velando pelo fogo trepitando.
Não pediste cetim, nem velas perfumadas, quiseste apenas a rudeza de um desejo imaginado, e eu, contigo, quis apenas guardar-te, como se guarda um momento na memória, sem passado nem futuro. Deixamos as palavras soltas pelos cantos, como as tuas roupas, caídas à medida da ternura que te entreguei, e fomos suor e àgua, e fomos amantes eternos de um momento único, onde rolamos no leito, incendiando os lábios, apagando a sede nos teus seios fartos, magnânimes, nas tuas coxas serenas, macias, no teu cabelo cheirando ao trigo por mondar.
Deixei-te, ainda dormias. Vi-te estendendo as mãos, procurando o que já terminara. Desejei-te uma vez mais, mas segui, como quem segue o seu destino, ao leme de um veleiro, apenas desejando vento, para aportar a outro cais.
Fica, meu bom desejo, fica. Procura-me nos teus sonhos, e fica, fica... O vento um dia pode mudar, quem sabe, e ao longe, na entrada da baía, estarei sempre eu, querendo que tu esperes, querendo que não queiras, mais que um momento, apenas para guardar.