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7.1.16

Não me deixes assim

Não me deixes assim, as tuas palavras desamparam-me, tornam estranhas as minhas, não se misturam, como gente cruzando as avenidas em noites de verão.
O dia nem está nublado, as andorinhas fazem loopings arriscados, assustadores por todos os lugares, e o vento tem um ritmo que só as árvores e o teu cabelo traduzem.
Não me deixes, como se nada tivesse havido, como se o prenúncio dos beijos fosse imaterial, como se mesmo o beijo que não houve, já não tivesse nascido e ficasse guardado na indelével vontade dos desejos mudos.
Hoje, que as marés se reservam para mais tarde, na areia que é chão de mar mais logo, o meu caminhar é órfão da tua mão, dos sorrisos e das voltas sobre nós mesmos em abraços divertidos, do teu ombro que me toca,  dos nossos olhos em paralelo lendo o mesmo infinito dum mar onde nunca entrámos juntos.
É por isso que invento e crio este amor de todos os dias, que desencanto as palavras sem querer saber se erradas ou certas, gordas ou magras, negras como as noites deste inverno gelado nas pontas dos dedos ou alvas como as madrugadas onde acordo para pensar em ti.
Não me deixes com as minhas palavras que sempre me acompanham, as gaivotas gritam como se soubessem de algo, e areia escreve coisas que o mar leva sem resposta.
Não me deixes com estas palavras que me desafiam, me batem às vezes, me transtornam quando me levam perto dos copos de tinto maduro, onde contigo um sorriso bastava para saciar os meus lábios.
Não me deixares, é deixar que te apanhe na porta da mesma estação onde chegas todos os dias, é essa boca rasgada de felicidade quando me chamas louco e aceitas as flores roubadas aos canteiros. Não me deixares são os meus ouvidos cheios das tuas gargalhadas e os teus vestidos de alças, de roda dançando com os teus cabelos lisos plenos de chuva no meio dos miradouros mais altos de Lisboa, quando tu brilhas mais que a cidade.
Não me deixares, é o poema que te entrego de manhã, quando adormeces plena e segura e eu sou apenas o teu homem que te fez feliz.

12.7.15

às vezes

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Às vezes são apenas imagens desfocadas que me aparecem à cabeça, cheias de música, cheias de movimento, inexplicáveis, como se ficasse à beira de qualquer sítio surpreendentemente belo, e extasiado nem um múrmurio nascesse.

Às vezes são palavras nítidas, transparentes, derramadas no papel como vinho numa toalha alva, que se espalha inexorável.

Às vezes é um silêncio do tamanho das noites grandes, onde cada som se amplifica até ao momento em que um raio de sol me resgate.

Às vezes sou só eu sentado diante de mim, explicando e voltando a explicar aquilo que deveria contar de outra forma para que me entendesse.

Às vezes faltam-me as pontes e as estradas que me ligam a outros continentes, a outras mãos, a outros abraços, ou a um momento perdido que nunca foi mais que um desejo construído, que bem visto depois, não passa do momento da euforia, das prendas abertas, dos papéis pelo chão.

Às vezes para ser feliz, bastaria ser apenas um ponto olhado do espaço, uma manta e um livro e um lugar onde me possa deixar estar, e onde tu me visses que há tanto tempo me deixaste.

Às vezes, o conforto desconforta.

As vezes é apenas fechar os olhos e ver-te, e saber que dizer-te tudo, é pedir-te um beijo e os teus braços, e dos teus braços, vir um beijo do fundo da carne dos teus lábios, e um caminho onde o meu corpo se chegue ao teu, tão intenso que por lá me deixasse estar até ao fim de cada história, de cada livro.

Às vezes, já nada faz sentido, nem sei se os poemas se devem guardar, quando os digo olhando-te a direito. Às vezes dou por mim pensando que às vezes, a vida tem tanto para não ser só às vezes. Tantas vezes como as vezes que não sei estar contigo.

14.9.13

Tu, vida…



Soube que o dia tem sempre um começo novo na noite que passa. Como quando te deixo e parto, olhando para ti, e me largo na aventura certa que não sei nem me importa como vai acabar.
Discordo da discórdia entre o que dizes e o que tu mesma representas, no teu dizer dos olhos, da tua boca, de ti toda vestida e sempre nua.
Avassalador, é sempre o momento todo das vidas com mil estórias contigo, de onde nunca soube estar. Apenas porque te olho e entendo esta adição, este vício de ti, ébrio da contemplação fútil, novelesca. És bela e basta-me. Como sempre, sublime, estás, apenas estás, sentada como se nada houvesse que te pudesse perturbar, como se o calor da minha mão, ou a agudez dos meus olhos não existissem, quando suborno a aragem ligeira para que libere a tua saia e transponha o teu joelho, e no simples prazer do deleite tudo baste.
No mundo, todos os poderes têm a circunstância de apenas serem poderes. Absolutos; fechados; efémeros. Todos morrem e se circunscrevem. Mesmo a terra, é um pequeno e simples átomo de um universo incomensurável, onde nem os mais entendidos em métricas são capazes.
Assim tu me possuis, nesse anteparo dos sentidos, nessa jaula onde entro, onde a água e a ração que me depositas todos os dias, são razão de vida e subsistência.
Percebo-te por detrás do meu ombro, o teu respirar quente, o teu cheiro perseguindo os movimentos, como um gato caçando moscas. Um dia sou o teu sacerdote, o imolador dos teus rituais, pedindo a tua graça e protecção, outras o teu escravo que imolas e te serve sem um amanhã que respire liberdade.
Por fim, as correntes caem, por fim sou eu olhando-te de longe, sou eu sem casaco e tu um ser frágil e belo, sempre belo, de que me largo, somos corpos nus e voláteis dizendo coisas sem sentido, e o teu cabelo apanhado, liso, a porta por onde saio livre e sem mais que o desejo de perder as memórias nas ruas onde não passarei jamais.
Um dia, um dia que ainda não existe nem adivinho, escreverei o poema mais cru, selvagem e profundo que existe, falando de mim e deste desejo que ancorado neste porto de onde sairei, te possa levar no meu barco, e no meio de um mar sem volta poder dizer-te de cor, olhando-te nos olhos o quanto hoje apenas és um breve pássaro no horizonte das coisas que existem.



7.8.13

Momentos contigo




















Por fim, toquei o teu corpo, quando num aceno breve do teu rosto, deixaste que o meu peito se colasse ao teu, e na explosão e no amplexo deste momento, como um fogo que vem do nada, o calor do teu corpo me disse ser verdade. Como se sentisse que o final de todos os dias começaria agora, como se um mundo novo acabasse de ser descoberto.
O sol bateu dentro de mim, como a um gato estendido nas lajes do alpendre. Os olhos fechados guardaram cada átomo, cada milésimo de segundo precioso, quando me deixaste entrar, e te olhando vi tudo o que podia olhar, e os teus olhos como duas esmeraldas doces disseram apenas sim, e me pediram apenas que te dissesse sim, sem passado nem futuro, apenas ali.
Os livros que encontro por ti a dentro, são pensamentos confundidos, são apenas actos de sentir e  ler, e Eugénio e Cesário abraçam-se na escrevaninha, Camus no peitoril da janela, espreita os pedaços do sol que morrem pela tarde dentro. Pessoa, o Joaquim, está junto às tesouras e à fita-cola, em cima de cadernos onde te encontro solta, folheada em trechos frescos dos teus próprios poemas, e os teus braços que me puxam, são ainda mais longos e fortes que a ponte vermelha que nos olha da tua varanda. E amamo-nos
Somos apenas corpo e um desejo só, sem palavras, sem mais que te ter e saber que me tens. E quando repousamos lado a lado, a tua mão rodopia no meu peito como bailarina, dançando em pontas, dizendo coisas que todo o tempo quis ouvir apenas de ti. Levantas-te, nua, linda, mulher. 
E as lágrimas escapam-se dos meus olhos para te seguir.

17.1.13

Memórias de borboletar…


     







A noite está clara, nem choveu como anunciaram. O candeeiro de luz branca anuncia-se por cima do teclado, e há um violoncelo que me acompanha num trecho de Bartok. Do fundo dos dedos rompo as estradas de tudo o que o dia me trouxe, para chegar aqui.

Na nostalgia dos sons mudos, o coração borbulha em impaciência pelo dia fosco que a madrugada há-de trazer.

O tempo vai rompendo pelas esquinas da sala, o cão dorme sem pressa. Sou apenas eu a sentir-me, sem mais que eu, neste mundo gigante, de postais coloridos que colecciono em memórias, sem nenhum tipo de arranjo, que o que imagino se mistura com o que vi e pensei, e a verdade é uma roleta de feira, enorme e cheia de números que são sempre os que não escolhi. Afinal não é a verdade que levo, apenas um prémio e mesmo assim, só caso acertasse, que o homem da roleta é mercador e sedutor – repetindo em tons largos e quentes um “ vá lá, jogue mais uma vez – vá lá!” Sempre com o sorriso de quem sabe que, seja qual for o número que saia, um dia o prémio partirá.

     Viajo pelas feiras e pelas procissões, torno-me menino vestido de anjo, e das avós babadas, que sem ser assim, nunca teria ganho meia dúzia de bolos doces e grandes, daqueles que só se ganham nestes dias, quando o calor arde por baixo dos fatos que picam e fazem comichão.
E de repente a memória, como borboleta, salta o tempo e voa, e já estou crescido, e já sou homem dando gritos por ti, que me calas e espantas e me deixas sem ar só de te ver, as mãos fechadas e esses olhos desconfiados, vermelhos de raiva, que eu amava antes, aos domingos, quando a missa já me enfadava e tu me enchias o meu ser e o meu tudo.

Ainda não, volto atrás; a borboleta saltita, esvoaça como chama de vela na varanda, ainda me deixo fugir e afundar no sofá das tias gordas, que me empapam de gemadas e paposecos de chouriço e manteiga, cheios, bons. E deixo-me nesses momentos de rei, ficar apenas saboreando, os olhos fechados e o conforto de um útero onde fui feliz lá dentro, amado, refém de coisa nenhuma, no escuro das janelas, dos cheiros a salas com veludos e carmins, e o capilé que vem depois para me deixar consolado. Só queria que já fosse outra vez dia de repetir este dia. Aperto os olhos e sou apenas como estou – bem, muito bem.

E se me desperto, e se olho bem cá da frente, é apenas para sorrir e saber que já foi o ontem e o muito ontem, sem volta e sem remédio, e que daqui, daqui donde vejo, só há caminho para andar. O coração pode sangrar, como as canelas, nos campos de futebol improvisados nas calçadas, nas pedras das ruas, onde eu era rapaz e tu, sempre tu, de cabelo escovado e laço azul, te chegavas ao mundo como se saísse dos figurinos que a minha tia gorda, costureira mostrava às freguesas.

Passo pelas ruas, sou já homem, o cabelo puxado para trás, colado da brilhantina, um fato cinzento de domingo, e sorrio, porque as casas velhas sorriem, no sorriso triste que os velhos emprestam à nostalgia. Só me lembro dos caminhos de terra por onde eu corria e fugia de tudo e me sentia livre e só. Era ali que as minhas histórias nasciam e eu podia falar alto e só, e cada muro era apenas um castelo do meu reino, e o meu cavalo trotava, paus de vassoura roubados nos quintais ermos, canas da ribeira onde apavorava as rãs, mas debaixo das minhas pernas, sem mais que os olhos fechados, acreditando que tudo podia ser verdade e diferente, o meu reino era o portão da casa dos avós, onde os braços enormes e o riso largo me acolhiam sem me perguntar mais nada, apenas apertavam.
Não vás borboleta, esvoaça sem destino, não me deixes velho, que eu tenho medo de esquecer as histórias, e o primeiro beijo com que as mãos abriram outro reino, e te ofereci o meu por esse sorriso e pela tua mão. 

5.9.12

Na serenidade de um passo

I
Na serenidade de um passo, viaja a voluptuosa sombra de um abraço imenso. De repente cai sobre mim, a tua forma graciosa, como garça de asas estendidas, pairando, e no desenho de um sorriso, a tua cintura fina poisa na minha mão, e ao levantar-te, num salto a dois, somos a figura incontornável do dia sem fim, que resta das coisas boas e do mar aberto onde a linha do horizonte tem a cor dos duetos felizes.
II
Na penumbra, quando descansas e relaxas no meu peito, quando o sol desceu para descansar e as ruas cinzentas brilham na conversa com a lua, chego-me a ti, e depois segredo no teu ouvido as coisas do dia todo, e deixo no ar, as margaridas que passaram perto das minhas mãos e que não colhi por me lembrar de ti. deixo os segredos do frio das sombras magnificas e como me deixei partir na vontade de te abraçar e abrir tua blusa soletrando todo um poema feito de carne e de ti.
Deixo teus lábios chegarem em múrmurios, dizerem coisas que bailam, são bailarinos em palco, expressam-se, rodopiam, fantasiam e depois num ligeiro passo de magia são o pas-de-deux perfeito que nos alucina e cavalga nas nuvens em que me embriago de ti, do teu toque, do teu cheiro, dos teus olhos que me vergam e me seduzem. tu apenas olhas, nesses olhos de que não me canso, desses teus olhos que me mostram quanto um soldado tem de caminhar e vencer as trincheiras... quanto as lágrimas se saboreiam e sabem bem.
III
Sou o teu soldado, a farda vermelha e dourada tem um laço cor de sol que bordaste com as tuas mãos, e onde deixaste teu toque e o teu perfume. Hoje voltei das batalhas, e chamei-te mesmo debaixo da tua varanda, quis-te como um soldado quer a sua bailarina. Hoje foi dia de passar no mercado e roubar um lírio para te entregar. Ganhei um sorriso solto debaixo das melenas do teu cabelo ruivo. Hoje ganhei o mundo e as batalhas perderam-se no teu regaço, e nos sorrisos dos gaiatos que jogam à bola pelo meio dos carros e dos caixotes. Hoje, vi-te com a tua saia de pregas rodopiando, e destes-me as mãos e olhaste-me como uma ideia feita vida, como um feitiço de encantar. E nesta rua que se chama mundo, fomos longe, ao fundo da rua, e roubei-te um beijo, na esquina onde se vira a outro mundo, na rua da imaginação e do sonho, onde tudo se permite e não há soldados, nem bailarinas, apenas nós e a rua que nos deixa passear, a rua onde podes ter todos os sóis e todas as luas, onde te posso cantar as baladas que invento e te sentas nos no chão para te recitar um ultimo poema. Hoje estou feliz.
IV
A noite passa arrepiada na gola do meu casaco, a brilhantina secou no cabelo, e o livro do Eugénio que trouxe para ti, descansa apalermado no degrau da porta, junto à umbreira onde o meu ombro se colou, ainda os pombos debicavam na calçada negra, saltando contentes.
Olho a cada instante e todos os sons são o gemido da tua janela a abrir lentamente para me deixar entrar. Como soldado, sou sentinela atento, e os joelhos e as pernas permanecem calados, cumprindo seu dever sem queixas nem azedumes. Hoje não apareces, não há sinal de ti, e mesmo assim deixo-me ficar como se a distância tivesse a lonjura de um oceano e nada mais tivesse que a memória como companhia. O teu sorriso aberto, leva-me às gargalhadas que fabricamos na alegria de nos darmos, na plasticidade dos nossos corpos juntos, nos nossos silêncios apáticos em que deixo cair as lágrimas de te olhar, no teu braço que se estende enternecido, teu rosto roçando o braço encostado ao teu ombro, os teus olhos escondidos por detrás do teu cabelo, o teu corpo como uma folha alva, onde quero ser teu poema e escrever-te tal qual te sinto. Lembro-me que sempre dizes – Vem!
O vento acorda-me e sinto teus seios no meu tronco, aquecendo-me. Já não sei se é verdade que estejas aqui. O teu beijo confunde-me e trinca meus lábios. És tu, e estás aqui, onde sempre estarás. Basta que estejas, basta que os teus olhos se abram, azuis, e me digam – vem.



17.7.12

Sol novo

















Andamos pelo mundo como cirandássemos perdidos pelos campos de batalha. Nem lutámos. Apenas estamos, perdidos, de visão turva sobre o campo, outrora verde, hoje rubro. Os corpos são o rescaldo, frios, nem importa, porque nada importa.
Os corpos não têm alma, decepados, enterrados na terra e no sangue, outros de faces lívidas parecendo sonhar. Eu caminho, como um autómato, busco apenas o que quero, busco e nada encontro, e cada rosto, desconhecido, faz-me feliz por não ser quem quero.
Os corpos perpetuam o silêncio das cidades cheias, onde nada conheço, onde nada sou. Os estandartes caídos não erguem exércitos. Paro, reclamo de mim mesmo, sou aquilo que tenho nas mãos vazias, cheirando a terra, enxutas do sangue.
O mundo é um reportório de gentes zangadas, é um desenho a solo de cada par de olhos, uma história antiga de quem cresce e se mantém antigo, na luta pela sobrevida a uma morte anunciada. Somos a geração urbana, dos civis civilizados, dos que se mantêm calados e não incomodam, dos que dizem bom dia e não cheiram a cheiros, dos que se desculpam ao tocar-se. Cada um é a propriedade, e cada propriedade é mais sua que a bondade e a solidária certeza de amar.
Hoje quis ser outro e soube que a escolha é minha, e que o campo de batalha será sempre mais que um campo de mortos e de silêncios. Haverá sempre o milagre de um gemido, haverá sempre um joelho para poisar na terra. E todos os dias o espanto novo do sol que nasce outra vez.

Os dias acendem-se


Os dias acendem-se já ao cair da noite, baralhados no calendário. Falo da vida, como se a vida fosse minha senhoria e vivesse em casa arrendada ameaçado a cada momento de despejo. Ligo o rádio, procuro as melodias tristes e sinto-me triste, a alma lancinante rebenta de incompreensão, pare a cada momento as lágrimas que os olhos fechados emprestam. Basta querer estar como estou, e estou.
Pego nos dias, olho cada um deles, dou-lhes nome e ordem, amonto-os certinhos, e apenas olho um de cada vez, a alma amotinada, descansa e relaxa, olho a vida e tomo-a como criança de colo, afinal, não eram dentes afiados, não eram mais que sombras agitadas do lado de lá da cortina, apenas vento e uma janela aberta.
Sei que o caminho é de cores e de texturas variadas, já quase os corri todos, sei que paro e atraso a corrida quando o medo me toma, sei que voo, quando o peito rebenta da confiança de me querer e de crer que sou capaz. Gozo, não a chegada, porque é gémea da partida, sei que é dos caminhos que respiro, sei que é no caminho que te encontro, meu amor de toda a vida, que é nos sorrisos e nos códigos das mãos que se tocam, dos ombros amparados, do teu gesto doce quando me tocas o cabelo ou me ajeitas a gola, sei que é daqui que parto sempre à espera de um novo passo.
Não me perguntem qual o passo, não me perguntem quando o darei, apenas vos quero ao lado, aos amigos, aos que me trazem novas histórias, aos que me oferecem canetas e folhas para escrever novos poemas, aos que me deixam sentar aos pés e aprender novas lições, aos que me deixam errar e ficar feliz por aprender. Sei que vou dar um outro passo, não me importa qual.
E do peito, e de dentro de mim, ofereço sem mágoa o futuro, deixo o passado arrumado em gavetas largas, onde não volto, e penso na música que me agarra ao presente, que canta feliz comigo, em escalas simples, em olhares grandiosos, em colos magnânimos, e passo ao dia seguinte, num sorriso jovial, num ar de despeito, que está na hora de acordar e ao pôr os pés no chão, gritar – deixa-te de merdas – a escolha é larga, a escolha é minha.

31.5.12

Por dentro de mim


Hoje o dia sabe-me mal. Trinco a poeira do caminho. A estrada estafada e quente, o sol encostado ao tecto a queimar-me. Os passos doem, as solas das botas caminheiras, descolam-se, lambem o chão como cães de caça, línguas soltas, e eu vou seguindo sem me importar onde vou chegar.
Há no caminho bancos de pedra, onde repouso com o prazer das pernas doídas, aliviadas. Pedra fria, deixa que o silêncio fale com a sabedoria imprópria dos que por lá se sentam, papagueando.
Há gente sentada no chão – invejo-os. Quero aquela vontade de me estender e a paz dos olhos fechados sem medo.
O caminho chama-me. O tempo do meu relógio é velho, apressado. Os ponteiros giram arrependidos e marcam na pele cicatrizes que apenas morrem e não ressuscitam. Nada conta, nada traz que eu não permita.
Apanho na beira da estrada uma vara velha, castanha, usada, acompanha-me desde aí até que a queira deitar fora, por agora, adoça-me os passos. Leio os nós e as marcas de outras mãos que se serviram e deixaram histórias de pauladas, de vencedores e vencidos, de mãos maceradas, de compassos e de riscos e vincos, e de números que se escrevem a metal, marcando datas, inscrições de quem a usou e lhe falou no caminho.
Ergo-me com a vara que não há-de ser minha, deixo o meu lugar, olho longe no caminho, e por um instante volto-me, para olhar esta ladeira donde venho, que já não me custa, porque passou, e nela encontro a força do impulso orgulhoso que me faz olhar o que ainda há por passar. Ganho a força das escolhas que me fazem avançar.
Começo a entender que não há árvores nuas, mesmo no inverno. Os pássaros nascem e partem, são os frutos do ar onde as árvores deveriam estar.
A tarde decidiu ficar fresca e serena. O vento amainou. Nada digo, nada desejo, sou apenas caminhante que sente e deseja sem voz.
Um cão passeia, a trote. Um dia quero ter um cão assim, magro, altivo, que coma à minha mão. Nunca vi um cão chorar. Queria saber o que me falta para os entender. Para falarmos. Gosto de os ver, de faro aguçado, de quem não confia apenas nos olhos e cheira e escuta, soerguendo as orelhas, empurrando o nariz mais longe. Apenas querem ser cães e nada mais querem que o que têm.
Deixei de vez a minha vontade de me sentar nos bancos que o caminho traz, sigo em frente, aprecio os desvios como aventuras que me servem em bandeja. Ao longe a cidade começa a preparar-se para dormir, exactamente quando as luzes se acendem na rua. Os carros guincham da pressa dos seus hospedeiros. Olho pares de gente, olhos comprometidos, exangues do pecado em que crêem, saindo das pensões cinzentas, onde se aqueceram um par de horas, aliviados do gelo das escolhas antigas a que retornam apressados, mornos nas renúncias negociadas antes das mãos se soltarem até ao próximo dia.
Excomungo os meus pensamentos, tomo as dores do mundo e rio em gargalhadas escancaradas. O mundo não me dá confiança nem me autoriza a que o tome em mim. Os caminhos mudam de piso apenas se nos mexermos.
Gostava de ter um botão incrustado em mim, apenas de ligar e desligar, um “on-off”, que me ligasse e desligasse desta corrente louca dos pensamentos, dos ses, destas torrentes de epifanias que como ondas de uma praia se levantam e morrem.
Desisto de partir, tomo o manto de caminheiro, e com ele hei-de dormir e comer, e ter-te a ti meu amor, nas lajes frias e nas camas de caruma onde nos deitarmos para amar. Hei-de ter este manto vestido cada vez que nascer e dentro do esquife onde repousarei de olhos fechados, sem medo. Hei-de vestir.me de caminheiro no meio dos bandos de pássaros e recolhido nas árvores vestidas. Hei-de ser caminheiro em cada página deste calendário circular e contínuo, onde em cada momento saberei quando estar nú.

11.5.12

Bernardo Sasseti morreu...


A morte anda a passar perto de mim, tocou-me hoje de pertinho, quando ouvi o nome de um pianista que me dava alma no tom apaixonado como desenhava as suas melodias e as entregava.
A morte inexorável, brusca e violenta que ceifa no caminho, que nos leva também em fracções maiores ou mais pequenas. Esta morte estúpida e egoísta que não nos ensina nada, e tudo guarda e encerra.
A morte é escura, bafienta, revoltante porque nunca é a nossa - essa nunca a vemos. Falamos dela como se nossa fosse, e afinal somos nós que nos mantemos vivos e lhe damos sentido.
A morte peca sempre por chegar cedo ou chegar tarde. Nunca aparece no tempo certo, quando precisamos dela. Podemos dizer sempre mal dela, ela não se importa, nada reclama - nada, apenas nos acompanha e nos leva à porta do vazio, da falta, da saudade, do irrepetível.
Eu estou pronto para chegar à fala com ela, sem constrangimentos, de forma frontal, procurando que o inadiável seja apenas esse momento.
E se porventura tiver que viajar com ela, porque nunca se pode viver com medo dela,  que deixe” in memoriae” dois ou três poemas que me recordem com a mesma gratidão com que agradeço ao Bernardo Sasseti, poder escrever enquanto o oiço ao piano tocando por uma Alice que não chegou… ainda.

29.2.12

Dias de passagem




Este domingo a vida mostrou-me mais uma vez a sua sabedoria. Nos Trilhos de Sicó, aos 20 KM, o meu corpo disse-me para parar. Insisti, porque a dor é inevitável mas o sofrimento não é, como me ensinou o Pedro Vieira. Afinal era altura de parar, tão simplesmente, porque há alturas em que parar é apenas ter a sabedoria de poder seguir depois mais à frente. Mas escolhi seguir neste domingo, agora recupero de uma rotura. Uma escolha, um ensinamento. Afinal apenas escolhas. Parar, como seguir, como qualquer problema, não é o problema, antes o contexto em que o abordo. 

Falo-vos disto, porque desde que saí da Bayer,  afinal são apenas 180 dias que multiplicados por 24 horas se transformam numa constelação de horas onde me tornei alguém diferente. Mais que ser, aprendi que apenas estou, e que o controlo deste estado é meu e só meu. Não sou um desempregado, apenas estou desempregado. Apenas estou numa situação que tem tudo para ser efémera, afinal é a mim que me cabe decidir o que estou – a fazer… decidi que não estou desempregado, estou a iniciar uma vida como decisor de mim próprio, com a minha própria empresa, com a minha própria vontade. Esta é a minha história, desenhada minuto a minuto, nas conversas, nas reuniões, nos contatos. O que sou, sou na mesma como sempre fui: Apaixonado, teimoso, persistente, anti - procrastinado, não porque me pareça bem, mas porque sou assim. Como dizia a minha boa amiga Helena Couras, sou um sortudo, porque tenho uma constelação de pessoas fantásticas à minha volta, porque tenho os recursos todos dentro de mim para usar, porque tenho uma linda e fantástica família,até um cão que me adora, tenho tanto para dar aos outros e tenho tanto daquilo que os outros me dão.

O tempo renova-se, regenera-se, bate-me à porta e diz-me que venha e o siga. Leva-me pelas praças, estende-me todas as ruas de possibilidades, de controlar aquilo que eu quero, aquilo que é a minha vontade. Largo os “devo”, agarro os “quero”.

Quero estar feliz, quero realizar os meus sonhos, quero dar tempo ao tempo, quero escutar os amigos e encher as taças generosas com que brindo de olhos nos olhos a vida.

Obrigado a todos os amigos que estão pelo caminho, obrigado a todos os que me dão a mão nestes dias, e a todos os que me viraram as costas, porque também aprendo com eles, e a todos que continuarão a me dar e a receber as minhas mãos pela estrada e pelo resto dela. Afinal estes dias, são dias de um caminho mais longo.